Professores(as) levados à exaustão e obrigados(as) a aprovar alunos(as) sem conhecimento, estudantes treinados(as) para fazer as provas do Saeb, redução da carga horária de disciplinas que promovem o pensamento crítico, estudantes com necessidades especiais excluídos da avaliação. Esses são alguns dos métodos utilizados pela gestão do governador Ratinho Jr. (PSD) para inflar artificialmente os resultados obtidos pelo Paraná no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, explica a presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto.
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De acordo com a dirigente, há pelo menos nove situações que explicam porque a posição do Paraná no ranking nacional não representa que o estado tenha de fato a melhor educação. “Essa nota não retrata a realidade e o nosso trabalho nas escolas. Ela não consegue captar todo o trabalho pedagógico e o esforço do dia a dia realizado pelo professor, pela professora, pelo funcionário, pela funcionária de escola, equipe pedagógica, direções de escola, na busca de uma melhor aprendizagem e de um real sucesso escolar”, relata.
O Ideb foi criado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação, com o objetivo de medir a qualidade da educação básica no Brasil por meio de um indicador único que combina aprendizagem e rendimento escolar. A nota do desempenho é medida pelas provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), no entanto, são consideradas apenas as médias em Língua Portuguesa e Matemática, ou seja, só duas das mais de dez disciplinas que compõem o currículo escolar.
Walkiria afirma que, sabendo disso, nos últimos anos, o governo do Paraná passou a organizar a rotina escolar em função do Saeb, com a realização de simulados, treinamento para o formato da prova e revisão de itens recorrentes. “Todo trimestre, provas e mais provas são aplicadas exaustivamente para que os estudantes peguem o método da prova do Saeb, o que não necessariamente produz conhecimento, mas melhora o desempenho da rede no exame”, pontua.
Como o Saeb avalia somente Língua Portuguesa e Matemática, essas disciplinas passam a receber prioridade. Disciplinas como Geografia, História, Filosofia, Sociologia, Artes, Espanhol, Educação Física, todos os outros saberes tão importantes aos estudantes, foram reduzidas na matriz curricular, produzindo uma formação mais restrita, porque não são medidas na prova do Saeb”, critica.
Ao mesmo tempo, o governo tem ampliado a pressão sobre professores(as), equipes pedagógicas, diretores(as) e as escolas. Walkiria afirma que o sindicato recebeu diversos relatos de cobrança intensa para elevar o Ideb, especialmente nos anos da avaliação, levando os(as) educadores(as) ao adoecimento, a perda da autonomia pedagógica e aumentando a burocracia.
A aprovação obrigatória dos(as) estudantes é apontada como mais um recurso usado pelo governo do Paraná para elevar artificialmente o índice, pois o fluxo escolar, que é a taxa de aprovação e reprovação, é outro componente que compõe a nota do Ideb. “Mesmo os estudantes que não adquiriram conhecimento suficiente para serem promovidos para a série seguinte, a escola é obrigada a aprovar., menciona.
Uma bonificação vinculada à nota do Ideb, criada por Ratinho Jr. pela Lei 21.847/2023, é vista como um problema, pois, na avaliação do sindicato, quando bônus financeiros ou reconhecimento institucional dependem do índice, cria-se uma lógica competitiva entre escolas e estimula comportamentos voltados ao cumprimento da meta, sem garantir melhoria sustentada da aprendizagem.
Walkiria também crítica o caráter punitivo embutido nessa política. “Agora, o Estado vai premiar as escolas que bateram a meta, a meta que ele criou, não uma meta de aprendizagem real. Algumas escolas, mesmo tendo todo o esforço ao longo desses anos, ficarão fora do bônus. Profissionais que atuaram com os estudantes ao longo de todo 2025 ficarão sem o bônus porque ou tiveram faltas por atestado médico ou porque não estarão na escola no mês do pagamento do bônus.”
Outro problema diagnosticado é o processo de exclusão e de seleção de estudantes, como denúncias de práticas para desencorajar a participação de alunos(as) com baixo desempenho no dia da prova do Saeb e a concentração de esforços apenas nas turmas avaliadas. “No caso de estudantes que têm tempos diferenciados de aprendizagem, as escolas foram orientadas a excluí-los da prova do Saeb”, exemplifica.
Somando a esses itens, Walkiria destaca ainda mais três situações. A primeira delas é de que o Ideb não capta a qualidade da educação como um todo, medindo apenas parte da realidade escolar, não incorporando aspectos como formação cidadã, pensamento crítico, inclusão, clima escolar, artes, desenvolvimento socioemocional ou participação democrática da comunidade escolar.
A segunda é sobre a desconsideração das desigualdades sociais. A dirigente considera que comparar escolas ou municípios sem considerar adequadamente diferenças socioeconômicas produz rankings injustos e responsabiliza professores(as) por problemas cuja origem está nas desigualdades estruturais.
Por fim, Walkiria aponta que o Ideb passou a ser manipulado propositalmente por governantes que utilizam o crescimento do Ideb como suposta prova de sucesso de suas políticas na área da Educação, mesmo quando há dúvidas se a melhora decorreu de avanços reais na aprendizagem ou de estratégias voltadas especificamente para elevar o indicador de forma artificial.
“Nós defendemos que a qualidade da educação seja avaliada no seu conjunto, não só por alguns elementos que possam ser medidos numa prova do Saeb. A educação que defendemos passa sim por uma educação de qualidade, passa pela valorização dos profissionais que atuam nela e, principalmente, pelo respeito ao nosso trabalho. Não é justo que, agora, por um ranking criado pela Seed, alguns tenham bonificações e outros não”, conclui Walkiria.
Números
Durante coletiva de imprensa, nesta quarta-feira (5), o Ministério da Educação (MEC) divulgou que o Ideb avançou em todas as etapas da educação básica no Brasil. No Paraná, de 2023 a 2025, em uma escala de 0 a 10, o Ideb do ensino fundamental passou de 6,7 para 7 nos anos iniciais e de 5,5 para 5,9 nos anos finais. Já o Ideb do ensino médio passou de 4,9 para 5,1.
Na rede pública do estado, o resultado passou de 6,5 para 6,9 nos anos iniciais; de 5,4 para 5,8 nos anos finais; e de 4,7 para 5,1 no ensino médio. Com esses resultados, o Ideb do Paraná alcançou, nas três etapas avaliadas, os maiores valores da série histórica iniciada em 2005.
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