Reportagens sobre o 29 de Abril e plataformização são premiadas

Duas reportagens sobre desafios enfrentados pelos(as) educadores(as) do Paraná foram premiadas nas edições dos prêmios Sangue Novo e Sangue Bom deste ano. Um dos trabalhos teve como tema o massacre de 29 de abril de 2015 e o outro abordou o adoecimento da categoria provocado pela plataformização. Os troféus, entregues pelo Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR), reconhecem novos talentos e a excelência do jornalismo profissional paranaense. A cerimônia foi realizada na sede estadual da APP-Sindicato, na última sexta-feira (7).

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“O reconhecimento de trabalhos que dão visibilidade para as lutas dos educadores e educadoras reforça o quanto as pautas da nossa categoria têm relevância para a sociedade. O jornalismo tem um papel fundamental na defesa da democracia, especialmente quando investiga e dá voz aos trabalhadores. Isso ajuda a sociedade a compreender questões que muitas vezes permanecem invisibilizadas pela máquina de propaganda do governo do Paraná”, avalia o secretário de Comunicação da APP-Sindicato, Daniel Popilnick.

A série “Além do 29 de abril”, de autoria dos(as) jornalistas do G1 Paraná, Mariah Colombo, Matheus Karam, Caio Budel, Douglas Maia, Maria Pohler e Fabio Furtado, conquistou o primeiro lugar na categoria “Reportagem digital e/ou para mídias digitais” do Prêmio Sangue Bom. Em três reportagens especiais, os(as) jornalistas contam histórias de pessoas que viveram o episódio de violência protagonizado pelo governo Beto Richa (PSDB) e que deixou mais de 200 feridos(as). O trabalho foi publicado em abril de 2025, quando o ocorrido completou 10 anos.

“Ficamos muito felizes com o reconhecimento. É sempre uma responsabilidade muito grande escrever sobre educação, principalmente quando abordamos a perspectiva de cuidado dos educadores. Quando falamos sobre educação, estamos falando sobre o futuro, e os educadores têm papel fundamental no cuidado e formação das crianças e adolescentes que são este futuro. É um tema pelo qual tenho muito apreço e valorizo muito que seja discutido e pautado”, conta Mariah Colombo.

“Não deixar que injustiças sejam esquecidas”

Questionada sobre como surgiu a ideia de produzir a série e porque a equipe considerou a história  importante naquele momento, a jornalista explica que a proposta inicial era um texto factual sobre um julgamento relacionado com o caso no Supremo Tribunal Federal (STF), algo bem jurídico e protocolar. Mas enquanto apurava as informações, Mariah diz ter ficado surpresa ao perceber que o assunto ainda não estava “resolvido”. Ao conversar sobre o tema com outro colega jornalista, Matheus Karam, notaram que, em breve, o 29 de Abril completaria dez anos. Com isso, decidiram fazer algo com um fôlego maior e o que seria um texto acabou se tornando três.

Mariah explica que o trabalho de apuração conseguiu traçar um panorama de como os(as) profissionais da educação são tratados(as) no estado desde muito antes do dia 29 de abril e que isso os levou até aquele cenário, como ele aconteceu e as consequências jurídicas e emocionais para os(as) envolvidos(as).

“Esse dia é ligado a memórias muito pessoais das pessoas que entrevistamos: a primeira flor que foi colhida na casa da professora, o policial que foi baleado por colegas de secretaria, o professor que já tinha estado do outro lado. Sem contar o nível emocional do choque dessas pessoas ao entender que estavam sendo tratadas como um risco, enquanto estavam lá protestando pacificamente por direitos, ou ainda o medo de como as pessoas que você ama iriam te ver depois daquilo”, conta.

Sangue Bom: Mariah Colombo é uma das autoras da série “Além do 29 de Abril”, vencedora na categoria Reportagem digital – Foto: reprodução / G1 PR

Ainda sobre a emoção de ter o trabalho reconhecido pelo prêmio mais tradicional do estado, Mariah destaca o papel do jornalismo como instrumento de denúncia das injustiças. “Dez anos atrás, última vez que o prêmio Sangue Bom tinha acontecido, várias reportagens sobre o 29 de abril foram premiadas, afinal, o episódio tinha acabado de acontecer. É muito simbólico um material que fala sobre o assunto repercutir dessa forma uma década depois. Vejo que a série de reportagens cumpre também um dos papéis do jornalismo profissional: não deixar que injustiças sejam esquecidas”, afirma.

:: Confira a série de reportagens premiada
>> Além do 29 de abril: g1 terá série especial sobre 10 anos do confronto entre polícia e servidores do Paraná que deixou mais de 200 feridos
>> O policial que virou professor após presenciar violência contra educadores em 1988 e protestou ao lado deles em 2015
>> Professora levou flores para o protesto e voltou para casa com restos de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha
>> Dez anos depois, feridos estão com ações de indenização congeladas enquanto STF avalia o caso

Já o livro-reportagem “Plataformização da Educação do Paraná: O projeto educacional que troca formação por metas”, ficou em segundo lugar na categoria “Reportagem impressa” do Prêmio Sangue Novo. O trabalho da estudante de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Amanda Grzebielucka, mergulha no ambiente de pressão, assédio e medo criado pela Secretaria da Educação (Seed) nas escolas da rede pública para implementar o uso de plataformas digitais nas salas de aula.

Do luto ao prêmio

A universitária conta que o trabalho teve origem a partir de uma história triste: o falecimento do professor de Matemática Paulo Sérgio Rufino, que deu aula para ela durante o ensino médio. Ao investigar a causa da morte, descobriu que, de acordo com os relatos de familiares e amigos(as), o docente adoeceu devido a imposição da gestão Ratinho Jr. pelo uso de plataformas digitais. O educador faleceu no dia 21 de maio de 2024, aos 57 anos. Ele trabalhava no Colégio Estadual Cívico-Militar Frei Doroteu de Pádua, em Ponta Grossa, e tinha 27 anos de profissão.

Sangue Novo: Amanda Grzebielucka foi premiada em segundo lugar com o livro-reportagem sobre plataformização na educação – Foto: Gelinton Cruz / APP-Sindicato

“Ele teve um infarto na sala de aula, teve outro a caminho do hospital e acabou falecendo. No velório, alguns professores falaram bastante que ele estava adoecido, estressado e ansioso por conta da plataformização, briga com a direção porque ele não queria usar as plataformas, e estava sendo obrigatório, e ele falando que ele não iria usar, pois não ia acrescentar nada na formação dos alunos. A partir desses relatos, eu entrevistei a mulher dele e comecei a contar a história da plataformização”, relata Amanda.

Segundo a estudante, outro acontecimento que reforçou sua decisão por essa pauta foi a morte de duas educadoras de Curitiba, também dentro de escolas da rede estadual e sob suspeita de pressão pelo uso das plataformas e cobrança de metas pela Secretaria da Educação. A professora PSS Silvaneide Monteiro Andrade, faleceu aos 56 anos durante o expediente no Colégio Cívico-Militar Jayme Canet, no dia 30 de maio de 2025.

Seis dias depois, a professora Rosane Maria Bobato, servidora pública há mais de 29 anos, morreu aos 67 anos dentro do Colégio Estadual Santa Gemma Galgani. Os casos provocaram profunda comoção e repercussão em todo o país. “Então, a partir dessas denúncias, eu comecei a investigar, comecei a relatar não só isso, mas todas as outras faces das plataformas na educação do Paraná”, conta Amanda.

:: Leia o livro-reportagem premiado
>> Plataformização da Educação do Paraná: O projeto educacional que troca formação por metas

“Ter um trabalho reconhecido, um prêmio tão importante como o Sangue Novo, me deixou extremamente feliz, não só pelo prêmio, mas acho que por toda a trajetória, por ter escrito esse livro durante o terceiro ano da graduação. Fico muito orgulhosa desse trabalho, justamente por ter abordado esse tema, que é um tema dos meus professores, os relatos dos meus professores, que tanto me ajudaram a chegar na universidade pública, tanto me incentivaram durante o ensino público e que foram fundamentais para hoje eu estar na universidade pública e para ganhar esse prêmio”, afirma.

Retomada

As reportagens foram avaliadas na 24ª edição do Prêmio Sangue Novo, que destaca trabalhos dos(as) estudantes universitários, e a 11ª do Prêmio Sangue Bom, para produções dos(as) jornalistas já formados(as) e em atividade. Com patrocínio da Itaipu Binacional, a solenidade marcou a retomada das premiações, após dez anos da última edição do Sangue Bom e sete anos do último Sangue Novo.

Foram 189 trabalhos inscritos em todo o estado, sendo que o Prêmio Sangue Bom contabilizou 42 produções divididas em seis categorias e o Prêmio Sangue Novo reconfirmou sua força como a principal vitrine acadêmica do Paraná ao registrar 147 projetos concorrendo em 12 categorias.

Cerimônia realizada na sede estadual da APP-Sindicato reuniu estudantes, docentes e profissionais – Foto: Gelinton Cruz / APP-Sindicato

Durante o evento, que reuniu estudantes, docentes e profissionais, a diretoria do sindicato enfatizou a relação direta entre o incentivo às premiações e a defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. A presidenta do SindijorPR, Aline Reis, destacou a importância da formação acadêmica para a garantia de um jornalismo ético e qualificado.

“Este prêmio serve para valorizar a formação em jornalismo e os jornalistas. As reportagens premiadas foram feitas com responsabilidade, checagem e apuração. É isso que é produzido quando o trabalhador do jornalismo é respeitado”, afirmou Aline.

A diretora executiva do SindijorPR e integrante da FENAJ, Márcia Raquel, e o diretor de Relações Estudantis, Renan Colombo, também destacaram o papel das premiações no estímulo à produção responsável e no reconhecimento de talentos regionais.

Esta foi a segunda vez que o auditório da APP-Sindicato recebeu a cerimônia. A primeira vez foi em 2016, quando ocorreu a 20ª edição Prêmio Sangue Novo. Confira a lista completa dos(as) premiados(as) dos Prêmios Sangue Novo e Sangue Bom.

:: Leia também
>> Grande ato em Curitiba faz memória dos dez anos do Massacre do Centro Cívico e cobra pagamento da data-base
>> Nota de pesar pelo falecimento da professora Silvaneide Monteiro Andrade
>> Nota de pesar pelo falecimento da professora Rosane Maria Bobato
>> Série de reportagens sobre a pesquisa Plataformização da Educação

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