Conteúdo do material pedagógico da disciplina de Educação Física foi questionado na imprensa por fazer ‘apologia’ ao marxismo
27/09/2007 – Sob o título “Livros didáticos com teor político-ideológico preocupam educadores”, a matéria veiculada na Gazeta do Paraná do último domingo (23) questiona o conteúdo do Livro Didático Público, especialmente da disciplina de educação física. Elaborado por uma equipe de professores da rede estadual de ensino e pesquisadores, o livro, segundo o professor de educação física e integrante do Coletivo de Educadores de Educação Física, Hermes Leão, é um material didático que pode ser aperfeiçoado, mas não negado. “Nós não tínhamos livros públicos para o ensino médio e essa é uma experiência inédita e importante”.
De acordo com a reportagem, o advogado Miguel Nagib, coordenador da Associação Escola sem Partido, comenta que a abordagem da prática esportiva na apostila de Educação Física é secundária e o que importa é fazer a revolução gramsciana. Segundo ele, o texto do livro fala mal do capitalismo a partir de critérios abstratos e preconceituosos. E opina: “nesse sentido é uma obra irresponsável e leviana, sem nenhum compromisso com a verdade histórica e a objetividade científica”.
Para o professor Leão, a opinião do advogado não faz sentido e inexiste fundamento pedagógico, uma vez que as referências educacionais teóricas sempre serviram para a exploração e, a partir delas, propor transformações. Além disso, defende também a escola que, segundo ele, é um espaço de reflexão, de acúmulo de conhecimento e de discussão. “Dentro desse espaço o professor vai fazer uma reflexão e a escola precisa ser este espaço democrático. Quer dizer que se alguém se posiciona, adotando uma análise crítica da sociedade ou uma ideologia superadora da ordem social, os setores da imprensa se colocam ao contrário, agora se o conteúdo for à luz do capital, pode?”, questiona. E acrescenta: o veto à escolha da teoria marxista é um veto à democracia. O texto é critico e se a escola não puder fazer esta reflexão ela vai servir para que?
Semelhante opinião tem o também professor de educação física Miguel Angel Alvarenga Baez. Segundo Baez, não há posicionamento que não parte de uma visão ideológica e, desse modo, a crítica de Nagib não foge à regra – é ideológica e partidária. “A critica se partidariza, pois o autor pode fazer na imprensa a crítica ao governo e isso é fazer parte. Sofismo assim é tentar escamotear essa realidade assim como fazer, como fez na matéria, vinculação do fascismo com o comunismo, quando na verdade o fascismo sempre esteve de mãos dadas com o capitalismo”, destaca.
Para Leão, vincular a teoria crítica marxista com regimes totalitários é uma forma superficial e retrógrada de analisar a situação. “Temos de fazer distinção das coisas. Não dá para se fazer essa vinculação automática com os regimes. É muito artificial. Além disso, o livro não faz apologia ao comunismo. É limitado ter esse raciocínio, o que já reduz em si a crítica, pois a negação desses regimes já foi superada”, declara.
Livro público – Baez e Leão não só defendem a elaboração do livro público como valorizam a iniciativa, por se tratar de um material que é resultado de uma produção intelectual dos professores comprometidos com a educação pública e como também por libertar o Estado das editoras. “É um grande avanço um material como este de apoio, editado e distribuído pelo estado, à disposição das escolas. O conteúdo também avança; é crítico e analisa realidade. Se vivemos numa sociedade capitalista, não poderíamos estar analisando outra suposta realidade”, defende.
Para Leão, Nagib peca em sua crítica exatamente por ser contrário ao livro, que é um investimento na produção intelectual local. “Quer dizer que comprar livro de editoras com o dinheiro público pode, mas a elaboração de livro público por professores vinculados à rede pública estadual não pode?”, questiona.
O Livro Didático Público é disponibilizado on-line pelo governo estadual e a versão impressa já foi distribuída para todos os alunos das escolas públicas de Ensino Médio do estado do Paraná, tornando-se material de apoio para estudantes e professores. Visto como uma política publica educacional é um material produzido por profissionais da rede pública estadual paranaense e envolve as doze disciplinas de tradição curricular no Ensino Médio: Língua Portuguesa/ Literatura, Matemática, Física, Química, Biologia, Geografia, Histórica, Filosofia, Sociologia, Arte, Educação Física e Língua Estrangeira Moderna.
Esportes – Sobre a questão do esporte, Baez enfatiza que a escola, além de ser um local propício para a prática esportiva, colocou o esporte no seu currículo escolar, no entanto, lembra que muitas vezes ela inviabiliza o seu progresso. “A educação física é muito importante, pois trata-se de uma disciplina que envolve saúde, recreação e forma de expressão. Mas, para educarmos para a prática desportiva e vivência corporal, queremos condições para desenvolvê-las bem nas escolas, ou seja, em escolas com boas estruturas físicas, quadras cobertas, materiais adequados, entre outros”.
Além da falta de estrutura física, o professor lembra ainda que as pessoas fazem suas atividades esportivas em lugares privados ou públicos, entretanto, quem opta pelo segundo depara-se com problemas.”As pessoas realizam a prática da educação física em academias ou clubes ou praças públicas. Porém, os espaços públicos para práticas de esportes, além de serem poucos e nem sempre bem aparelhados, ainda existem aqueles com problemas de segurança pública”, pontua.