Para os cidadãos, a constituição, para nós, os cidadões, o destino

15/08/07 – Para os cidadãos, a constituição, para nós, os cidadões, o destino, por Eder Pires da Fonseca
Uma campanha intitulada Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, liderada pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional São Paulo, movimento com a participação de diversas entidades e lideranças ‘sociais’ (tomei a liberdade de colocar aspas), a Cansei, inicialmente motivada pelo acidente em Congonhas, tomou proporção maior e se revolta contra outros problemas que têm acontecido no Brasil: corrupção, violência.
Indaga-se a tal movimento por que não houve revolta quando do desabamento de parte das obras do metrô em São Paulo; outros, por que não se revoltam com a Assembléia Legislativa de São Paulo, que não deixa abrir CPIs para investigar possíveis irregularidades no governo do Estado ou com a Câmara de Vereadores da cidade de São Paulo; ainda, por que não lançaram o movimento quando ‘jovens burgueses’ (se fossem pobres, ‘quadrilha de marginais’) espancaram trabalhadores; outros ainda, por que, depois de começada a divulgação de informações da caixa preta do avião da Tam (vôo 3054), que apontam falhas dos pilotos, não foi cobrada da mídia uma explicação das informações desencontradas, na clara tentativa de vincular o acidente ao caos aéreo, pichando o governo federal, e não a divulgação da superlotação de aviões, a pressão sobre órgãos de fiscalizações para liberação de aeroportos para aumentar a rentabilidade.
Mais grave, por que não se revoltam contra o descaso público que gera mortes de centenas de pessoas por falta de atendimento médico ou contra os atentados declarados (e incrivelmente não divulgados) por instituições humanitárias que narram as barbáries contra direitos civis, oriundos das invasões por diversos órgãos de segurança? Bem como execuções em favelas dos que chamam de bandidos (e nunca sabemos se realmente tinham ligação com o crime)?
Minhas perguntas são as mesmas de diversos ‘cidadãos’; e ainda adicionaria, a tudo que já li/ouvi (reproduzido acima), por que esse movimento não foi criado em outros momentos de grave crise no País, em que empresários (a mesma classe que participa desse movimento) estavam envolvidos em escândalos de caixa 2, favorecimento em licitações públicas, os chamados lobbies? Ou quando as diversas fiscalizações do Ministério do Trabalho detectam explorações humanas sob batuta de empresários corruptos? Por que esses mesmos cidadãos que propõem, como disse o presidente da OAB/SP, Flávio Borges D’Urso, ‘uma manifestação cívica de cidadania e de amor ao Brasil’, não se cansam das distorções ocorridas na mídia brasileira? Ao tratar, por exemplo, da pichação dos movimentos sociais, como o MST, que coordena ‘invasões’ reivindicando direitos constitucionais (violados desde que se conhecem por gente), é tido como quadrilha de marginais, diferente do tratamento aos cidadãos que têm de esperar vôos atrasados, que xingam, maltratam funcionários das empresas aéreas, quebram aeroportos e ainda assim são tidas por legítimas as manifestações, porque seus direitos de cidadãos foram violados.
De um lado, essa mesma mídia está revoltada com a quebra do direito de ir e vir dos cidadãos que chegam atrasados em reuniões de negócios, perdem suas férias, e de outro não se revolta com os inúmeros direitos violados de milhões de brasileiros que não têm direito de ir e vir (andam em ônibus superlotados, ganham salários irrisórios); não têm direito à alimentação básica, não têm direito à educação de qualidade, não têm direito a lazer; não têm direito a vida digna. E o que mais me indigna: nem ao menos têm o direito de dizer ‘cansei’, porque seriam adjetivados como preguiçosos, nordestinos que querem viver às custas dos projetos sociais.
É essa mesma mídia que distorceu o fechamento da RCTV, da Venezuela, dizendo que era um ato contra a liberdade de imprensa e esqueceu-se de dizer que, para ter liberdade de imprensa, é também preciso haver um país com nível educacional suficiente para os cidadãos filtrar o que lêem. Mídia essa que quer liberdade de imprensa para fazer descer goela abaixo uma programação estúpida, tendenciosa, em nome da liberdade empresarial. Uma mídia que faz parecer ditadura o governo que tenta eliminar a mídia tendenciosa e transforma movimento golpista em cívico.
Por que não nos lembram os trabalhadores que morrem em acidentes com ônibus deteriorados, superlotados, trabalhando no corte de cana, em carvoarias, em condições sub-humanas? Por que não nos lembram, já que é um movimento brasileiro, que esse barulho todo, em tom golpista, deve-se a, por exemplo, ter morrido nesse acidente um deputado, megaempresários, socialites, estudantes da classe média alta com um futuro (e passado) brilhante?
Quem dirá que esse é um movimento elitista e golpista? Há algum sinal disso? Alguém duvida que esse movimento realmente não seja de cidadãos que querem ver nosso imenso Brasil mais igual, mais justo?
Com tudo isso, grife-se bem, não quero reduzir, em nada, a fatalidade que ocorreu. Não quero defender (nem eximir de culpa) as empresas aéreas, nem qualquer governo, seja municipal, estadual ou federal. Não quero fazer um discurso de oposição (que pode reduzir a questão) entre pobres e ricos, entre burgueses e operários. Preciso entender como, ao serem brasileiros como a doméstica espancada, como os trabalhadores em regime de escravidão brasis afora, como a maioria de nós, recebemos tratamentos desiguais por parte da mídia e da utilização diferenciada de justiça e punição (que no caso da doméstica, a tática foi ao contrário: falar, falar, falar sobre o assunto, tornando-o enfadonho).
Todos nós realmente somos iguais mas, ao tratarem dos 70 milhões de brasileiros miseráveis, a mídia, estranhamente, encobre o problema o torna normal e não e não causa cansaços em determinados brasileiro, como se para os milhões de brasileiros, fosse a força do destino a responsável pela violação dos seus direitos.
Morrem milhares de pessoas nas filas médicas, nos hospitais, de balas perdidas; sem contarmos aquelas que já nascem ‘mortas’, ainda que vivam biologicamente. Afinal, se para ser um cidadão é preciso ter os direitos constitucionais garantidos, não tê-los é como não existir.
Talvez toda essa diferença exista porque nós somos cidadões e eles ‘cidadãos’: uma pequenina diferença de formação! Para os cidadãos, a constituição, para nós, cidadões, o destino.

Eder Pires da Fonseca é estudante de filosofia na Universidade Estadual de Londrina.
Mantém um site pessoal no endereço www.ederfonseca.com.br.

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