05/07/2007 – Revista Caros Amigos
Em inglês, literalmente, lobby significa espaço na entrada de edifícios, e nos Estados Unidos adquiriu sentido político quando cidadãos passaram a abordar seus representantes na porta das casas legislativas. No Brasil, lobby tem conotação negativa, e por mais que se fale em “relações institucionais” ou relações “governamentais”, para identificá-lo, na boca do povo é tráfico de influência mesmo. Tem gente que o define, maliciosamente, como a segunda profissão mais antiga do mundo.
Lobby, a ante-sala da corrupção
por João de Barros
TRECHO 1
O lobby atua na linha tênue que separa a cooptação da corrupção. Operacionalmente ele se vale de variados recursos, como o envio de correspondência a políticos e funcionários públicos, contatos pessoais, visitas, realiza eventos institucionais ou sociais, promove viagens, oferece presentes.
Quem não se lembra das festas em Brasília, alardeadas pelos jornais, nas quais brilhavam garotas de programa arregimentadas pela “promoter” Jeany Mary Corner? Quando nada disso traz o resultado esperado, o lobby pode utilizar métodos menos agradáveis, como intimidação, abuso de poder econômico – colocando no edital de licitação algo que as empresas congêneres não possuem -, concorrência desleal ou fraudulenta, comportamentos esses todos que seriam comuns à maioria dos grupos de pressão que atuam no Congresso Nacional.
Existem lobbies para tudo – desde para facilitar a concessão de jogos de azar até as intrincadas relações internacionais, como o famoso caso da Raytheon, ganhadora da concorrência do Sivam, o Sistema Integrado de Vigilância da Amazônia. Antes de colocar seus pleitos, o lobby estudava o perfil de deputados e senadores. Agora, contudo, as bancadas suprapartidárias facilitaram a ação dos grupos de pressão e trabalham abertamente na defesa de alguns interesses. As bancadas dos ruralistas, da comunicação, da saúde, da educação, dos evangélicos, dos sindicalistas e da bola são apenas alguns exemplos. De todas, porém, as que atuam mais fortemente junto ao Congresso Nacional, são a bancada dos empreiteiros, capitaneada pelas “cinco irmãs” – Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Mendes Júnior -, a dos bancos cacifados pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e, mais recentemente, a da informática.
“Até algum tempo atrás” – me diz o assessor de um deputado federal – “os lobbies não abordavam certos parlamentares, principalmente de esquerda, porque julgavam batalha perdida. Mas com o PT no poder muita coisa ruiu”. (…)
TRECHO 2
Portinglês
Tudo é oferecido para cooptar o parlamentar ou funcionário público quando ele se mostra, digamos, acessível. Há casos em que o lobby até adianta os trabalhos: põe logo no papel um projeto de lei, nos moldes requeridos pelo Congresso. Para aplicar sua estratégia, contrata gente com especialização em universidades fora do país, geralmente em economia. São pessoas realmente especiais, se expressam misturando o inglês e o português, num dialeto próprio. Têm entre 30 e 45 anos e se comportam e falam como se estivessem em um país do Primeiro Mundo. Termos como globalização, privatização, âncora cambial, desindexação, mesclam-se, em seu discurso on-line, a expressões como trade-off, foreign exchange ou gold point, por exemplo.
Independentemente de tais cacoetes, essas pessoas têm de ser perspicazes e sociáveis, capazes de abordar também com desenvoltura temas como futebol, artes, vinhos, viagens e, sobretudo, economia e negócios. Devem também ter bons contatos e ser extremamente bem informados acerca do que ocorre no interior do governo – federal, estadual ou municipal – onde pretendem operar. É assim que detectam as demandas que interessam aos clientes do lobby – a construção de hospitais, escolas, rodovias etc – de forma a se antecipar na tarefa de ganhar as licitações de obras como essas e outras. (…)
TRECHO 3
O peso das empreiteiras
Do atual Congresso, 38 dos 81 senadores foram beneficiados por recursos de empreiteiras em suas campanhas eleitorais. Assim como 285 dos 513 deputados que compõem a Câmara. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, somente duas construtoras, a Camargo Corrêa e a OAS, desembolsaram por meios oficiais a quantia de 15,6 milhões de reais para candidatos nas últimas eleições. O maior beneficiário foi o hoje senador Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal – um milhão de reais, de duas empresas de terraplenagem, uma das quais – a JM Terraplenagem – executou obras na rodovia DF-190, que liga a cidade-satélite de Ceilândia a Santo Antônio do Descoberto, em Goiás.
O peso das construtoras é ainda maior junto aos parlamentares que fazem parte da Comissão de Orçamento, o principal terreno onde opera o lobby. De seus 42 membros titulares, 26 tiveram apoio financeiro de empreiteiras em suas campanhas eleitorais, no montante de R$ 3.108.700,82. As informações são do TSE. (…)
João de Barros é jornalista.
Escritórios de lobby
por Marcos Zibordi
TRECHO 1
Fazer lobby não é ilegal, apesar de não ser regulamentado por lei. E, talvez por isso, toda conversa com os “lobistas do bem”, como são chamados os que têm escritório e empresa constituída, começa com a defesa da legitimidade em pressionar representantes do poder numa democracia. Eles se consideram poliglotas: traduzem interesses empresariais para a linguagem burocrática, e vice-versa. Informam para convencer, repetem, assim como insistem no ponto que os distinguiria dos corruptores: agem às claras, têm endereço fixo, página na internet, seus funcionários abordam políticos e agentes públicos usando crachá.
Mesmo assim, Guilherme Farhat Ferraz teme ser mal interpretado. Ele comanda um dos escritórios mais destacados do ramo, cujo nome é Semprel, sigla não traduzível em palavras. Vou começar a gravação da entrevista em seu funcional escritório próximo ao Congresso Nacional, mas ele pede pra conversarmos antes. Explico novamente a pauta e ele se mostra preocupado com algo que ninguém pode mudar sozinho: o sentido social pejorativo atribuído ao seu trabalho. (…)
TRECHO 2
Dali fui ao encontro de Antônio Marcos Umbelino Lobo, proprietário do mais antigo escritório de lobby na capital federal – o Umbelino Lobo Consultores e Assessores, fundado em 1979. Com ele também começou em casa o interesse pelo negócio. Natural de Goiânia, o pai veio para Brasília com a missão de instalar o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários. O pai fez amigos influentes, como Hélio Beltrão, o homem que organizou a Petrobrás.
No início da década de 1970, o jovem Antônio Marcos cursava direito e dava aulas de inglês. Ao voltar de um curso de 40 dias em Londres, encontra em casa Hélio Beltrão, então presidente do grupo Ultra, que estava montando escritório em Brasília. Três dias depois, Beltrão toma posse como ministro extraordinário da Desburocratização. Antônio Marcos foi trabalhar com ele e entendeu a linguagem do poder. “Uma vez que você trabalhou nisso, a coisa fica inoculada e você nunca perde. Nosso negócio é Brasília. A gente explica para os clientes como funciona o poder Executivo e o Legislativo, a gente não lida com o Judiciário. É um trabalho de traduzir a linguagem do empresário para o burocrata e para o político, e vice-versa. Isso é mais do que um direito, é dever do setor privado manter um canal permanente de comunicação com o setor público no sentido de auxiliar na formação das políticas públicas.” (…)
Marcos Zibordi é jornalista.
Mais na edição impressa:
Um testemunho: ele tem quase duas décadas dedicadas ao serviço público. Trabalhou em Ministérios, Secretarias de Estado, autarquias federais, mas sempre pertenceu aos quadros do Senado Federal. Durante todos esses anos, viu como o lobby atua no no parlamento. E decidiu contar um pouco de sua calada agonia ao repórter João de Barros.
Como é feito o orçamento
As licitações
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