12/06/2007 – Como boa curitibana, tenho minhas manias e obsessões. Olhando as estantes em casa, estão enfileirados 39 livros de Dalton Trevisan, sem contar as 21 edições da Revista Joaquim e inúmeros textos publicados em jornais e revistas ao longo desses últimos 20 anos. Eis meu grande tesouro.
Ao nos depararmos com o universo do contista em meados dos anos de 1980, fomos invadidos por um misto de medo, estranheza, rejeição e sedução. Depois de lidos os primeiros contos, não conseguimos mais parar. Sua obra tornou-se um vício-sadio para nós, ou como ele diz: “Um bom conto é pico certeiro na veia”.
Podemos até rir das situações grotescas, inusitadas ou violentas que envolvem seus joões e marias, não sem termos um evidente mal estar pois, deparamo-nos com nós mesmos senão em situações idênticas, mas muito próximas às narradas.
Dizem alguns que o contista se repete, que explora as dores e sofrimentos alheios sem o menor escrúpulo, que é um devasso ao expor as mais secretas fantasias sexuais dos indivíduos. Ainda, que deprecia e desdenha de Curitiba, palco predileto para suas batalhas conjugais e crimes violentos.
Nada escapa ao olhar atento do contista: os pseudopastores, os maníacos sexuais, os viciados queimando suas pedrinhas de craque, as prostitutas que habitam o Passeio Público, os bêbados que dormem pelas calçadas, a hipocrisia dos respeitáveis pais de família.
Mas, não é só de horrores que se compõe seu universo ficcional. Não são somente os ratos piolhentos e as baratas leprosas que protagonizam suas obras. É preciso lê-lo com cuidado, com carinho para descobrirmos as pequenas/ grandes delícias que povoam seus textos.
Em Dalton Trevisan há humor:
A noivinha em pranto:
– São horas? Um homem casado? De chegar?
O boêmio fazendo meia-volta, no passinho do samba de breque:
– Não cheguei, minha flor. Só vim buscar o violão. (2002, p.119 in: Pico na veia)
Há ternura, há carinho e lirismo para com as crianças, para com os animais:
No alto da escada, mal abro a porta, três bolinhas negras: dois olhos e um focinho. Mais o rabinho frenético, limpador louco de pára-brisa. Largo o pacote no primeiro degrau e me atiro para abraçá-lo. Senão, ai de você: bruto escândalo, gemido e choro. Esperar não pode, a festa de cada encontro. Em tantos anos nunca o vi sem lhe fazer um agrado. Ele nunca me viu que não ganisse de amor. (Tiau, Topinho, 26/12/1993, Gazeta do Povo)
Ou seja, nosso Vampiro de Curitiba tem coração. Um coração que bate forte e se indigna com a miséria, com a violência, com as desigualdades e injustiças sociais. Só terá medo do Vampiro quem compactua com a hipocrisia, com a corrupção ou quem fecha os olhos, ignora o menor abandonado, dá de ombros para os desafortunados e diz: “- Isso não é problema meu.” Esses sim precisam ter medo da ira do Vampiro e proteger seus pescocinhos.
Esperamos que neste 14 de junho de 2007 o Vampiro deixe-nos mais “mordidinhas gostosas”, brindando-nos com seu talento e sua genialidade que nunca envelhecem, pois diz a lenda que os vampiros não morrem. Então, Dalton Trevisan é eterno.
Cláudia Gruber
Professora de Língua Portuguesa e Mestranda em Estudos Literários na UFPR.