Encontro internacional realizado em Porto Alegre reuniu representantes da etnia guarani que vivem hoje no sul do Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai e na Bolívia. Já são cinco séculos de uma história de exclusão, discriminação e violência praticadas contra esse e outros povos indígenas.
Por Marco Aurélio Weissheimer
Habitantes do continente sul-americano antes da chegada dos colonizadores espanhóis e portugueses, os índios guarani vivem hoje um drama comum a outras etnias indígenas: a falta de terra, a exclusão social, cultural e econômica. Representantes dos cerca de 225 mil índios guaranis que vivem hoje no sul do Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai e na Bolívia, estiveram reunidos em Porto Alegre, de 11 a 14 de abril, no 2° Encontro Continental Sepé Tiaraju e o Povo Guarani.
O documento final do encontro, divulgado no sábado (14), sintetiza os problemas que os guaranis enfrentam para conseguir terras para viver e trabalhar e também para preservar sua cultura, cada vez mais ameaçada. Já são cinco séculos de uma história de violência, exclusão e discriminação praticada pelas populações brancas contra os povos indígenas. Uma história que parece longe de acabar.
Neste contexto, os guaranis têm procurado resistir e sobreviver. “Apesar de toda a violência praticada ao longo dos últimos 500 anos, nós resistimos”, afirma o documento final do encontro. “Hoje somos mais de 225 mil pessoas, um dos maiores povos da América. Através de nossos encontros continentais fazemos a memória da luta de nossos antepassados e anunciamos a esperança no futuro que construiremos com nossas próprias mãos. A falta de terra é o principal problema que atinge nosso povo. Não vivemos sem a terra e a terra não vive sem o nosso povo, formamos um único corpo. A falta de terra não permite que vivamos de acordo com nossa cultuara. Nossos jovens são obrigados a buscar trabalho em outros locais não sobrando tempo para aprender com nossos velhos”.
Luta pela terra e preservação ambiental
Os guaranis destacam ainda o estreito vínculo entre a luta pela terra e a questão da preservação ambiental. “Nosso povo sempre viveu com muito respeito em relação à natureza. O mato verdadeiro é nosso local principal para construirmos nossas aldeias e vivermos nossa cultura. Sem o mato, a água, os rios e todos os seres que nela habitam, não podemos viver. Durante milhares de anos vivemos nesta natureza, respeitando e vivendo com ela. Hoje percebemos, com profunda tristeza, que restam poucas matas verdadeiras, que os rios foram poluídos e os animais foram extintos. Além disso, o que resta de matas verdadeiras, foram transformadas em reservas e parques ambientais, estes para nós são lugares sagrados, mas os não-indígenas nos impedem de os ocupar. Isto se deve à ganância do não-indígena que precisa destruir tudo para dizer que está trazendo progresso”.
Os guaranis chamam a atenção ainda para o fato de que “até os não-indígenas estão percebendo que a própria terra está esquentando e pode desaparecer”. “Isso nossos anciões sempre alertaram que poderia acontecer se a natureza não fosse respeitada. Por isso afirmamos que a demarcação de nossas terras é um bem para toda humanidade, por que jamais a destruiremos”, diz o documento de Porto Alegre.
A reivindicação dos guaranis recoloca uma questão histórica que foi varrida para o esquecimento. Eles já tiveram um território, certa vez, que foi tomado pelos colonizadores europeus. Chamado Ywy Rupá, esse território, lembram, “foi cortado, várias vezes, por fronteiras entre países e estados”. “Fizeram guerra para roubar nossas terras. Por isso, hoje, nosso povo ficou dividido entre Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia”.
Os índios não reconhecem essas fronteiras, mas não é fácil colocar esse não reconhecimento em prática. “Continuamos visitando nossos parentes e tentando andar livremente, como fazíamos em tempos passados. No entanto, percebemos que cada vez mais estes países desenvolvem políticas que nos impedem de viver ao nosso modo. Em alguns países, nos chamam de estrangeiros, de forasteiros, e dizem que não podem reconhecer o direito a nossas terras por que elas não nos pertencem. Mesmo assim, nós continuamos lutando por nosso território e pelo fim de todo tipo de fronteira que impede de vivermos livremente.”
O problema não é só territorial. A exclusão cultural não é menor e só vem aumentando nos últimos anos. O documento sintetiza:
“Sempre desenvolvemos nossa educação com base nos valores e ensinamentos repassados por nossos anciões, nosso lugar de educação é a casa de reza. Hoje temos escolas em quase todas as aldeias, e muitas escolas não respeitam nosso jeito de ensinar as crianças, querem que aprendamos igual aos não-indígenas. Apesar de termos conquistado leis que garantam escola diferenciada, percebemos que alguns países e estados não tem competência para desenvolver a educação diferenciada. A escola deve ser feita de nosso jeito, com nossos professores e programas desenvolvidos pelo nosso povo, que ela contribua com nossas comunidades e que não seja mais uma forma de destruir nossa cultura. Exigimos, dos países e estados, secretarias especiais com profissionais competentes para atender as escolas Guarani. Da mesma forma, queremos que o atendimento à saúde ocorra respeitando nossos conhecimentos tradicionais”.
Unificação de lutas com movimentos sociais
Além dos guaranis, também participaram do encontro representantes das etnias caingang e charrua, e organizações de trabalhadores urbanos e rurais. O Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) promoveu um debate sobre a situação do desemprego no Brasil e apresentou alternativas que vêm sendo propostas pelo movimento em outros estados. Movimentos ligados à Via Campesina no RS, debateram o tema da produção de energia nas pequenas propriedades familiares. Catadores de material reciclável e representantes de comunidades quilombolas do Estado também realizaram atividades no encontro.
Na base da idéia de reunir organizações indígenas e movimentos sociais está a disposição em construir pautas conjuntas de mobilização. O acesso à terra, a educação, a saúde e a soberania alimentar são algumas dessas pautas, em torno das quais os movimentos presentes no encontro pretendem unificar suas lutas.
Fonte: Agência Carta Maior