Ativista negro questiona livro de história do Brasil

28/03/07 – Pai de aluno em escola pública, Novais encaminhou correspondência ao MEC pedindo que o livro seja recolhido.

Foto: Marcos Zanutto

Novais: ”Me chamou a atenção as figuras expositivas dos negros escravizados, em situações constrangedoras e até humilhantes”
”Para trabalhar nos canaviais, vieram os negros.” À primeira vista, a frase parece não apresentar nenhum problema, afinal, negros realmente trabalharam em canaviais no Brasil, e isso é lecionado nas escolas. Mas, na verdade, os negros não vieram, foram trazidos ao País. ”Quem vem, vem livremente, por sua própria vontade. E não foi o que ocorreu”, argumenta o professor e ativista do movimento negro Edmundo Silva Novais.
O que parece ser apenas uma questão de terminologia ganha força ao se folhear o livro em que essa frase aparece com destaque, da Coleção Conversando sobre História, de Francisco Coelho Sampaio. ”Me chamou a atenção a grande quantidade de figuras expositivas dos negros escravizados, em situações constrangedoras e até humilhantes. São quadros e desenhos inclusive de artistas conhecidos”, afirma Novais, que contou o número de imagens presentes na publicação que considera racistas: 14 das 25 em que aparecem pessoas negras.
O termo ”escravo”, que, segundo o professor, aparece pelo menos 73 vezes no livro, também é motivo de crítica. ”O termo constrói a impressão de que ser escravizado seria um estado permanente e inato dos africanos.”
A obra em questão integra o Programa Nacional do Livro Didático 2007 do Ministério da Educação, e é utilizada pela Escola Estadual Carlos Dietz, em Londrina, instituição onde o filho de Novais cursa a terceira série primária.
Em carta endereçada ao Ministério Público, ministério, secretaria e conselho estaduais de educação, Editora Positivo (responsável pela publicação) e Escola Estadual Carlos Dietz, o ativista afirma que o livro ainda descreve minuciosamente os violentos castigos sofritos pelas pessoas escravizadas e ainda propõe, como atividade de fixação, que os alunos elaborem uma história em quadrinhos sobre um dia na vida de um escravo. ”Como se fosse algo natural a uma criança de oito anos colocar-se numa situação de extrema desumanização e sofrimento físico, moral e psicológico”, comenta.
O ativista do movimento negro pretende que se recolham todos os exemplares da referida publicação. ”A criança que vê constantemente figuras de negros sendo submetidos ao trabalho escravo e humilhação, mesmo que não haja nenhuma menção textual a respeito, vai acabar se habituando a tais situações, considerando-as normais. Isso contribui para se perpetuar o racismo”, alerta.
Novais, que leciona educação física, lembra que grande parte dos professores do Estado não conhece a lei 10.635, que institui a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana em todo o território nacional. ”Estamos discutindo como trabalhar essa disciplina com a Secretaria de Estado da Educação, para colocar a lei em prática dentro da rede estadual.”
Adriana Ito
Reportagem Local
* Matéria veiculada no Jornal Folha de Londrina no dia 25/03/07

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