Leandro Taques e Julio César Lima retratam em fotos e textos como o país africano vem vivendo depois de cerca de 30 anos de guerra civil
O fotojornalista Leandro Taques e o jornalista Julio César Lima lançam no dia 28/02, em Curitiba, o livro “O Retrato da Paz”. A publicação apresenta fotos e histórias do povo de Angola, na África, que desde 2002 vive em paz após cerca de 30 anos de guerra civil. O trabalho é resultado de 40 dias de andanças por toda Angola, entre novembro e dezembro de 2006, em busca de personagens de diversos segmentos da sociedade que contribuíssem com relatos sobre o período de guerra e de pós-guerra. O lançamento do livro, junto com abertura de exposição fotográfica, acontecerá a partir das 20 horas no restaurante Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678, Alto da XV).
Ao todo, os jornalistas percorreram 6,5 mil quilômetros por vias terrestres em 11 províncias angolanas. Foram feitas cerca de cinco mil fotografias e 18 horas de gravações audiovisuais com mais de 50 personagens. O objetivo era extrair da população suas impressões a respeito da reestruturação social e econômica do país depois de terminada a guerra, que foi centralizada entre o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita). “Não tínhamos a intenção de tomar partido de nenhum dos lados e nem de recontar a história. Por isso, a principal experiência foi a troca de impressões com as pessoas que sobreviveram à guerra. Foi importante darmos voz a elas para que pudessem opinar sobre o futuro da nação”, diz Julio César.
No livro, há fotos e depoimentos marcantes de uma sociedade que tenta se estruturar fisicamente com investimentos externos, ao mesmo tempo em que vê uma legião de excluídos, geralmente órfãos da guerra. É o caso de Francisco Manuel, 53 anos, que nasceu na província de Huambo e lutou, entre 1977 e 1985, pelo MPLA, vencedor do conflito e ainda hoje no poder. Sem uma perna, destruída quando pisou em uma mina, Francisco vive nas ruas pedindo ajuda. “Depois do acidente me deram US$ 120 e me mandaram embora. Hoje, sem uma perna, não tenho emprego e nem condições de sustentar meus dois filhos”, lamenta.
Segundo o fotojornalista Leandro Taques, o livro também traz depoimentos de pessoas que perderam parentes na guerra, investidores nacionais e estrangeiros, artistas plásticos, músicos, escritores, trabalhadores rurais e pessoas envolvidas com projetos sociais, além de uma reportagem sobre os campos minados. O projeto, que prevê ainda palestras em escolas, universidades e outros centros culturais, tem o patrocínio da Petrobras.
Três décadas de conflito
Os 30 anos de guerra civil se iniciaram logo após Angola se libertar de Portugal, em 11 de novembro de 1975. Os movimentos de libertação MPLA, Unita e ainda a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), que lutaram juntos pela independência, passaram a travar uma batalha entre si pelo comando do país. Cada um deles tinha o apoio de potências estrangeiras, dando ao conflito uma dimensão internacional.
Em setembro de 1992 esperava-se o fim do conflito com a realização de eleições. No entanto, a Unita não reconheceu a vitória do MPLA nas urnas e recomeçou a guerra, que só terminou de fato em 2002 com a morte do líder da Unita, Jonas Savimbi.
Nos últimos cinco anos o país, com 14 milhões de habitantes, tenta se refazer. A reconstrução é física, social e econômica. Obras por todos os lados mostram a vontade do povo em sedimentar uma nova vida. Na economia destacam-se a exploração de petróleo e o café como principal cultura agrícola.
Apesar das riquezas, a distribuição de renda está longe de ser exemplar. A população vive em condições de pobreza extrema, tendo, em média, menos de US$ 2 por dia para cada habitante. Isso acarreta problemas como a mortalidade infantil, a maior do mundo, tendo 250 óbitos em cada 1000 crianças de 0 a 5 anos.
Os jornalistas
Leandro Taques é jornalista formado pela Universidade Tuiuti do Paraná. Pós-graduado em Fotografia pelas Faculdades Integradas Curitiba e pela Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro. Atua como editor gráfico e fotógrafo. Começou a trabalhar como diagramador em 1995 na Folha de Londrina. Em 1998 iniciou sua carreira como fotógrafo, também na Folha de Londrina, onde ficou até 2001. De lá para cá vem se dedicando a projetos pessoais, como a viagem a Angola, e a trabalhos como free-lancer.
Julio Cesar Lima é jornalista formado pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP). Trabalhou em veículos de comunicação do Paraná e de Santa Catarina, entre eles a Folha de Londrina , Jornal do Estado e A Notícia (SC). Também fez trabalhos como assessor de comunicação nas áreas de esportes, economia e política. Atualmente faz trabalhos como free-lancer.