Seed e Sesa advertem: “fale menos durante a TPM”

As Secretarias de Estado da Educação e da Saúde enviaram às professoras da rede estadual correspondência datada de 25 de agosto de 2005, do projeto Saúde Vocal. A carta dá algumas “dicas” para as professoras se cuidarem, em especial no período menstrual, apontando alimentos mais saudáveis e outros que devem ser evitados. Segundo a carta, uma semana antes da menstruação, as professoras devem comer, entre outros, arroz integral, espinafre, aveia, nozes e castanhas… e evitar cigarro, bebidas alcoólicas, doces, refrigerantes com açúcar, sal e outros.
Até aí talvez apenas mereçam atenção dois pequenos fatos: o das nozes e castanhas serem caras e que a dieta indicada ser recomendável em todo o período do mês, e não apenas na semana que antecede à menstruação. Talvez seja apenas para reforçar que nesta semana estamos mais suscetíveis…
Na mesma carta aparece uma frase em destaque num box, que nos chamou a atenção. Diz o seguinte: “Professora, preseve a sua voz, durante a TPM procure falar só o necessário”.
Aqui temos algumas observações para fazer.As secretarias não explicam os porquês desta recomendação: afinal, há mudanças no metabolismo e nossas cordas vocais ficam mais fracas? Será que na TPM perdemos o controle da situação e falamos muitas bobagens? Ficamos mais nervosas, gritamos mais na TPM, deixando nossa voz cada vez pior? Estamos fazendo essas perguntas porque achamos que merecemos uma resposta. Se devemos falar menos para cuidar da voz, o que será que tanto se acirra durante a TPM para merecer atenção especial? Não foi respondido. E mais, os homens não têm problemas ou não têm TPM para piorar sua voz?
Quando se trata de discursos médicos sobre as mulheres já estamos escoladas! Desde os séculos XVIII e XIX, com a consolidação da modernidade, a disciplinarização e controle dos corpos das pessoas é um dos principais objetivos da burguesia. No caso das mulheres, foram muito usados os argumentos médicos, com ênfase especial para as histerias, os cuidados especiais na menstrução para não enloquecermos; coisas deste tipo, que a história da medicina está farta de exemplos (isto para não falarmos das bruxas na Idade Média, queimadas por conhecerem segredos da natureza…). Na era da informação em que vivemos, não dá para uma Secretaria da Saúde dizer que faz mal falar muito na TPM e não dizer porquê. Parece ou um mistério para iniciados que detêm o saber ou como se costuma falar com crianças: “é para o seu bem, viu…”
Para além do controle médico de submissão das mulheres, o mais trágico é que não se questionam as condições de trabalho: como as condições estão massacrantes, o conselho para manter a saúde é falar “menos”. Devemos perguntar se, para as secretarias, as salas superlotadas, escolas sem a menor estrutura física, falta de pessoal, redução e impedimento de licenças médicas, essas coisas não existem ou não interferem na voz dos professores? Conversar com os professores de Educação Física, por exemplo, ajudaria a entender o que é problema nas cordas vocais… Da forma como foi apresentada na carta, a responsabilidade é colocada sobre os ombros das professoras, que devem resolver seus problemas individualmente, desconsiderando os problemas do conjunto dos trabalhadores.
Eu não sei se o pessoal da Secretaria da Saúde sabe, mas o governador Requião vetou o projeto de redução do número de alunos por sala de aula. Também não sei se a SESA sabe alguma coisa sobre a Síndrome de Burnout; sobre as licenças médicas, cada vez mais difíceis, sobre a falta de pessoal de apoio e coisas assim, do cotidiano da escola e que ajudaria muito não só na saúde vocal, mas na saúde integral.
Esperamos que as professoras sejam mais respeitadas da próxima vez, assim como os que receberam outras cartas, no mesmo tom E inaceitável que as duas secretarias só tenham isso a dizer a respeito do programa de saúde vocal ou que tratem o tema com esta superficialidade. Desejamos que a Sesa e a Seed forneçam explicações mais condizentes e razoavelmente científicas, porque é assim que os professores estão acostumados a explicar o mundo para seus alunos.
PS – Outras “cartas” foram enviadas com outros assuntos. No mérito também com soluções individuais.

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