Scliar saúda retorno da Filosofia e Sociologia

O ensino e a realidade
Conselho Nacional de Educação tornou obrigatório o ensino de sociologia e filosofia no Ensino Médio em todas as escolas do país. A medida veio na hora. E certamente os professores da área saberão dar o recado que deles se espera.
Moacyr Scliar
Carta Maior – Anos atrás, telefonou-me um professor da Brown University com um convite que me pareceu insólito: ele queria que eu desse um curso sobre literatura. Ponderei que, sendo escritor e não professor, não me sentia em condições de dar um curso desses para alunos de Letras. Para minha surpresa, ele disse que não se tratava do curso de Letras e sim do curso de Medicina: eu estava sendo convidado, na dupla condição de médico e escritor, para ministrar palestras sobre a imagem do médico e da doença na literatura. Agora: por que literatura no currículo médico?
A resposta eu descobri lá. A universidade estava empenhada na humanização do curso de Medicina, considerado demasiado técnico. Não era apenas uma questão de orientação curricular. O fato é que os médicos americanos pagam um preço por isso. O atendimento tornou-se distante, impessoal, demasiado dependente de procedimentos e equipamentos. A revolta dos pacientes manifesta-se no crescente número de processos judiciais. Humanização, e não só na Medicina, tornou-se palavra de ordem.
Lembrei disto ao ouvir o anúncio da decisão do Conselho Nacional de Educação tornando obrigatório o ensino de sociologia e filosofia no Ensino Médio em todas as escolas do país. A medida apenas ratificou algo que já acontece: as disciplinas fazem parte do currículo das escolas de 17 Estados. Isto, de outra parte, reverte o desenho curricular imposto durante o regime autoritário, quando sociologia e filosofia foram excluídas do ensino.
Certamente a decisão do CNE vai provocar polêmica. Aliás, já está provocando. O site www.midiaindependente.org promoveu um debate a respeito, em que participaram numerosos jovens. Eis algumas das opiniões: “A sociologia não vai libertar ninguém, isso é uma viagem. Vai ter mt picareta, mt reprodutor de pensamento e mt aluno de saco cheio”. Outra: “Tive três semestres de filosofia, dois na escola e um na faculdade, onde os professores ficavam falando só do que aconteceu na Grécia e nas porras antigas”. Mas contesta um universitário: “A filosofia e a sociologia não são apenas disciplinas; se por acaso o professor só falar na Grécia antiga, não é por que a filosofia é um saco, mas o professor é que é medíocre”.
É claro que ensinar filosofia não significa voltar aos tempos da Grécia antiga, mesmo porque as circunstâncias eram outras. Tratava-se de uma sociedade escravagista, em que tecnologia praticamente não existia – para que facilitar o trabalho, se havia a barata mão-de-obra escrava? – e na qual o tempo livre transformava-se, para muitas pessoas, numa possibilidade de especular (não raro genialmente) sobre o ser humano e o universo. No Brasil atual, filosofia e sociologia, têm outro enfoque, outro significado. Ética e violência tornaram-se questões cruciais, fazem parte do cotidiano de todos nós. Portanto, não se trata de cultura geral. Trata-se de nossa própria sobrevivência como sociedade organizada, como seres humanos dignos. A medida veio na hora. E certamente os professores da área saberão dar o recado que deles se espera.

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