Site Nota 10 aborda a violência nas escolas

Estudar em muitas escolas do Paraná pode ser uma aventura muito perigosa
Nota 10 – A violência ronda as escolas do Paraná. “O colégio já não é mais um lugar seguro para nossos filhos. Fico sempre com medo de acontecer algo”. O desabafo da cabeleireira Zenita Cordeiro Soares, que tem um filho na 3.ª série de uma escola de Curitiba , é o mesmo de centenas de mães. E a preocupação não é para menos. Somente no ano passado a Patrulha Escolar recolheu 48 armas de fogo em posse de alunos de escolas paranaenses. Nos quatro primeiros meses deste ano já foram 12 apreensões.
O que mais assusta é a idade dessas crianças. Normalmente as armas apreendidas estão em posse de estudantes que têm entre 12 e 14 anos. Poucas são as armas com maiores de idade. “Das apreensões do ano passado, somente três estavam nas mãos de adolescentes entre 18 e 19 anos”, explica o capitão Vanderley Rothenburg, coordenador estadual da Patrulha Escolar Comunitária.
Proteção – De acordo com Rothenburg as armas são conseguidas por intermédio de pais ou mesmo amigos. Normalmente são utilizadas para proteção pessoal. Como o meio em que o aluno vive provê força e liderança, a criança se sente incentivada e até mesmo pensa que, portando uma arma de fogo, será aceita melhor pelo grupo.
Normalmente a escola fica sabendo que um aluno está em posse de uma arma por meio de denúncia.
A Patrulha Escolar só é autorizada a realizar revista após aprovação de mais de 50% dos pais e com autorização da Justiça. Quando as revistas acontecem tudo o que não é pedagógico é retirado das mãos dos estudantes. Normalmente são apreendidos estiletes e tesouras de ponta, além de celulares que, para a Patrulha Escolar, se tornou uma moda eletrônica perigosa. Cobiçados os aparelhos se tornam objeto de furto entre os estudantes.
Gangues, traficantes na porta das escolas, brigas entre os próprios alunos, ataques verbais contra professores são apenas alguns dos problemas. Em 2005 a Patrulha Escolar realizou 3.301 ocorrências nos 26 municípios paranaenses atendidos pelo programa. Dos atendimentos – que são realizados desde 2004 por 450 policiais- 21,2% foram em relação a ameaças, 17,2% por furto simples, 11,5% por furto qualificado, 10,5% por lesão corporal, 10,1% por dano, 10% por violação de domicílio, 7,4% por rixa, 6,3% por desacato e 5,8% por roubo.
Segundo o capitão Rothenburg hoje não há como medir a violência pela posição social ou localização dessas escolas. Para a diminuição dos índices de criminalidade tudo vai depender da participação da própria comunidade. De acordo com o policial há localidades humildes em que a Patrulha Escolar conta com a colaboração dos pais e moradores. “Nestes locais há diminuição da criminalidade”, garante.
Na opinião de Rothenburg as melhorias em todas as escolas devem vir de um tripé: família; escola; e religião. “Hoje há uma inversão de valores. Os problemas com violência normalmente se originam em casa. Muitas vezes diálogo e carinho resolvem o problema”, acredita.
Escolas que mais sofrem com violência em Curitiba
Escolas estaduais de Curitiba e Região Metropolitana que sofrem com problemas de violência, de acordo com a APP Sindicato.
_x0007_ Escola Estadual Arlindo Amorim (Curitiba);
_x0007_ Escola Estadual Papa Angelo (Almirante Tamandaré);
_x0007_ Escola Estadual Flávio Cordeiro da Luz (Curitiba);
_x0007_ Escola Estadual Anibal Cury Neto (Curitiba);
_x0007_ Escola Estadual Santa Rosa (Curitiba);
_x0007_ Escola Estadual Alfredo Paródia (Curitiba);
_x0007_ Escola Estadual Marly Braga (Piraquara);
_x0007_ Escola Estadual São Cris tovão (Piraquara);
_x0007_ Escola Estadual Domingos Zanlonrenzi (Curitiba).
Histórias assustam, mas ainda não há dados específicos
Enquanto alunos se armam, professores ficam assustados. Não são poucas as histórias contadas pelos docentes. Muitos preferem ficar no anonimato com medo dos próprios estudantes. Nem mesmo a APP-Sindicato, entidade que rege a categoria, tem dados específicos sobre a violência vivida por professores em sala de aula.

Silvana Prestes é hoje diretora da APP-Sindicato e já foi testemunha de muitos casos, inclusive com envolvimento de funcionários da escola em que trabalhava. Ela lembra de um caso em que uma das alunas estava namorando um traficante. “O pai da aluna acabou conseguindo o endereço do traficante com uma funcionária da escola. O traficante descobriu e começou a ameaçar o filho da funcionária. Ela teve que mandar o filho para casa da mãe”, conta.
De acordo com Silvana são inúmeros os casos que chegam a APP-Sindicato. A violência não tem hora para acontecer. Normalmente os professores pedem sigilo já que são ameaçados de morte. Em alguns bairros há até mesmo toque de recolher. Apavorados, esses docentes acabam pedindo transferência para outros locais.
Para a APP-Sindicato os maiores problemas não estão dentro das escolas, mas ao redor delas. Gangues chegam a matricular membros para que a venda dos “produtos” seja facilitada. São os chamados “aviãozinhos”. Muitos ficam na porta dos estabelecimentos de ensino vendendo droga para os estudantes. “Mas ainda não há como estabelecermos números. A questão é recente e os professores têm medo de falar”, justifica.
Problema surge por causa da perda de valores
Para especialistas a causa da violência está diretamente ligada à perda de valores. E a solução é por intermédio da família. A pedagoga Chloris Casagrande Justen explica que muitas foram as transformações ocorridas ao longo dos anos. Principalmente em relação à família. Os pais, por exemplo, perderam a autoridade em decorrência da correria do dia-a-dia e passaram a delegar essa função a outra pessoa. Desta forma a criança foi inserida em um ambiente difuso sem saber ao menos quem realmente manda. “A autoridade ficou multifacetária. Os pais têm que saber que são responsáveis pela atitude dos filhos. Muitos se preparam para tudo na vida, menos para ter filhos”, explica Chloris.
Na opinião da pedagoga a criança deve ter claro cada papel, ou seja, o papel dos pais, dos professores, do diretor e até mesmo do guarda que fica na porta da escola. Ter limites é fundamental para o desenvolvimento. “A criança precisa perceber as relações corretas já que vivemos num jogo de regras”, disse.
A mesma opinião é compartilhada pela psicopedagoga Kelly Cristie Benvenutti Pereira. De acordo com ela os valores da família se perderam e a responsabilidade acabou sendo “adotada” pela escola. “Acho que o que falta é colo de pai e mãe”, explica. Kelly, que trabalha com escolas de Fazenda Rio Grande, diz ainda que são várias as formas de agressão dos estudantes. Desde pichação e espancamento até mesmo a auto-violência ou perda de auto-estima.
Na opinião da psicopedagoga atos de violência acabam explodindo dentro de sala de aula e prejudicam alunos e professores. Os alunos perdem o respeito e o interesse. Já os docentes vivem em constante estresse emocional. “O trabalho é uma extensão da casa. Imagine trabalhar em um ambiente violento. Muitos profissionais acabam desenvolvendo depressão ou síndrome do pânico”, explica.
Gangues aterrorizam bairros inteiros
Nem sempre o problema está dentro da escola. Boa parte das dificuldades é gerada fora dos muros da instituição. Gangues costumam aterrorizar bairros inteiros e entrar em conflito com os estudantes.
Na escola Hildebrando de Araújo, no Jardim Botânico, a “violência externa” é realidade. A proximidade com as gangues da Vila das Torres assusta pais e professores. Não são poucos os dias em que estudantes são assaltados na porta da escola. “Não estou dizendo que todos os moradores daquela região pertencem a gangues. Na verdade menos de 30% pertence a essas facções. Mas são os responsáveis por esses problemas na escola”, explica o diretor Osvaldo Alves de Araújo.
De acordo com o diretor as gangues agem em plena luz do dia levando tênis e outros objetos dos estudantes. Há ainda o risco das drogas. Segundo Araújo os professores detectam em sala de aula os estudantes que são usuários de entorpecentes. Há também denúncia de alunos armados. Para tentar coibir esse problema a escola solicitou revista dos estudantes que foi aprovada pelos pais.
Outra forma de agressão dentro da escola é a verbal. Araújo já passou por essa situação várias vezes. “Mas esse é o nosso aluno. Mesmo sofrendo violência o professor deve trabalhar com ele tornando-o cidadão”, afirma.
Estudantes reclamam da violência
B.H.P. tem apenas 15 anos e já sente na pele o que é violência. Estudante da 5.ª série reclama de pessoas estranhas que rondam a escola. Ele acredita que em sala está mais seguro, mas sair às ruas se torna um perigo. “Pessoas que não são do colégio são as mais perigosas. É disso que tenho medo”, explica.
K.K.C.S. tem apenas 11 anos e já presenciou muitas brigas na escola. Ela acredita que isso atrapalha os estudos. “Já vi briga entre os próprios meninos. Isso é incômodo. E fora tem os problemas de gangue. Tenho medo, principalmente de andar sozinha”, confessa.

Já a aluna S.S., 12 anos, não recrimina pessoas violentas. Motivo: ela mesma se considera assim. “Não levo desaforo para casa. Se tiver que brigar brigo mesmo. É assim até na minha casa entre os meus pais”, conta.
Escolas se previnem com sistemas de segurança
Nas escolas públicas, grades e cadeados. Nas particulares, câmeras de segurança. Assim está sendo o dia-a-dia de muitas escolas em Curitiba e Região Metropolitana. No Colégio Santa Maria, no bairro São Lourenço, as câmeras já são utilizadas há 7 anos.
O diretor educacional Ascanio João “Chico” Sedrez explica que há câmeras na entrada e saída do colégio. O monitoramento é realizado o tempo todo. Funcionários ainda permanecem na portaria.
Para auxiliar neste trabalho o colégio conta com o próprio apoio da comunidade. “Os pais são nossos parceiros”, explica Ascanio. De acordo com o educador hoje o maior problema é a violência externa, já que se algo acontece na instituição medidas são tomadas para melhorar o relacionamento entre os estudantes.

POR