Reportagem de Fábio Massalli, publicada em O Diário do Norte do Paraná
Os negros não estão representados na revista Maringá Ensina, publicada pela Secretaria Municipal de Educação para divulgar os projetos realizados em 2005 e lançada com grande pompa em um café-da-manhã no Hotel Elo esta semana. Pelo menos esta é a opinião de Iracy Adorno Reis, membro fundadora da Associação União e Consciência Negra de Maringá.
Aracy é professora municipal aposentada, fundadora e presidente do Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, membro do coletivo de promoção da Igualdade Racial da APP-Sindicato e Conselheira Tutelar. Ela recebeu diversas reclamações, inclusive de pessoas brancas, sobre a inexistência de fotos de crianças negras na revista. “É um trabalho muito bonito, mas não está contemplando a diversidade racial. Não estou falando mal da Secretaria de Educação, tenho respeito pela secretária (Norma Deffune), mas é triste que uma revista tão bem articulada não tenha contemplado as crianças negras”, lamentou.
Efetivamente, em toda a revista, as crianças negras praticamente aparecem apenas como personagem coadjuvante em fotos de aulas e eventos. Até mesmo no artigo sobre o ensino de história e cultura afro-descendente, a página é ilustrada com o desenho de um casal e uma criança negros, vestidos como escravos libertos, de costas e se afastando do leitor.
Em todas as fotos produzidas especialmente para a revista – incluindo a utilizada na agenda e no mouse pad distribuido no lançamento da publicação – não existem crianças negras, apesar dos afrodescendentes representarem 25% da população maringaense. Também não estão presentes os índios e japoneses. “Uma situação como esta é prejudicial para a auto-estima das crianças. A igualdade racial não está representada na revista. O negro paga impostos, participa da cultura, da economia e do desenvolvimento da cidade e do país. E também vota”, desabafou, com lágrimas de revolta.
A ex-professora afirmou que o objetivo é que a diversidade racial seja retratada nas publicações e publicidades da cidade. Assim, as crianças brancas, negras, índios e orientais poderão abrir a revista e se verem representadas na publicação. Segundo Iracy, isso contribuiria que para que elas cresçam sem preconceitos. “A criança gosta de se ver, se identificar. Uma revista como essa diminui a auto-estima da criança negra. O negro também quer se ver nas coisas bonitas, não apenas ligado à fome e à pobreza. Se a criança negra não se ver e à sua família, ela sempre retoma à escravidão. Não fomos escravos, estivemos escravizados por um período, mas com a pseudo-liberdade e o preconceito deste país ainda sentimos o peso das correntes”, afirmou.
A secretária de Educação, Norma Deffune, discorda da opinião de Iracy e de outros defensores dos direitos dos negros. Segundo ela, a revista traz um artigo sobre afro-descendentes e mostra uma aluna negra que se formou no projeto de alfabetizaçãode adultos. Não foram utilizadas fotos de crianças negras pela dificuldade da produtora encontrar alunos negros durante as férias.
Norma acrescentou que a revista não será distribuida aos alunos, apenas aos professores, que seriam mais ?sensíveis ao assunto?. Para os alunos da rede pública, foi produzido um clip de prestação de contas das ações da Secretaria, tendo como “apresentador” o prefeito Silvio Barros. No vídeo, pelo menos sete das quinze crianças são negras.
Faltaram modelos negros para fotos
Para Antimodoro Zanko, do setor de planejamento da Única Propaganda – empresa responsável pelo projeto gráfico e diagramação da revista Maringá Ensina – realmente faltou diversidade racial nas fotos produzidas para a publicação. O motivo coincide com uma das justificativas apresentadas pela secretária de Educação, Norma Deffune: houve dificuldade dos estúdios e agências encontrarem modelos negros para as fotos. “É verdade que também fomos pelo mais cômodo, mas não haviam crianças negras nos cadastros existentes. Se tivessemos que encontrar, isso tornaria a produção mais difícil?, explicou. Zanko acredita que falta uma maior contato com a comunidade negra para preencher esta lacuna.
No vídeo produzido para a Secretaria de Educação, por outro lado, foram utilizados crianças da Escola Municipal Dona Angelina Lonardon Menegheti, de Iguatemi. Neste caso, mais da metade dos 15 alunos utilizados na filmagem era de afrodescendentes.Para a revista, utilizar alunos da rede pública ao invés de modelos, resultaria em uma série de complicações, como a necessidade de seguro e a presença dos pais. Além disso, as crianças também estavam em período de férias.
”Houve a preocupação, mas não tivemos condições de colocar crianças negras na revista. Para o segundo número esperamos superar este problema. Hoje existe uma preocupação do marketing com o consumidor negro”, afirmou.
Legenda da foto de Cleber França
Iracy Adorno Reis, uma das lideranças do movimento negro de Maringá, cobra fotos de crianças negras na revista da Secretaria de Educação