Com exceção de algumas escassas linhas sobre o fato, sem sequer direito a foto, a mídia brasileira tentou ocultar a “ocupação” do Congresso Nacional, realizada por 200 dirigentes cutistas, representativos dos principais Sindicatos, Federações e Confederações de todo o país. Da mesma forma, calou por completo sobre três importantes audiências da CUT com os ministros do Desenvolvimento Agrário, Previdência e Trabalho. Salário mínimo? Redução da jornada? Direitos sociais? Coisas sem importância…
A censura tem sua principal razão na preocupação dos donos dos meios de comunicação em blindar os aspectos extremamente nefastos da política econômica herdada do neoliberalismo, como as mais altas taxas de juros do mundo e o escandaloso superávit primário, colocados em xeque por nossa central. Defendemos uma política de valorização crescente do salário mínimo, o estabelecimento de metas de emprego e de investimento nas áreas sociais, em contraposição à camisa-de-força defendida pelos burocratas do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Na tentativa de impedir que a sociedade dialogue, buscam calar a nossa voz questionadora e propositiva, limitando nossas possibilidades de interlocução e de mudança.
Neste momento, quando o Brasil realiza mais uma Semana Nacional pela Democratização dos Meios de Comunicação, considero fundamental que o conjunto do movimento sindical amplie sua visão crítica sobre a excrescência que é manutenção dos atuais feudos de manipulação e desinformação dos donos da mídia, concentrada em nosso país em seis redes privadas que abrangem cerca de 700 veículos, entre emissoras de TV, rádios, revistas e jornais.
Reduzida à condição de mercadoria, a informação vem sendo prostituída para servir aos interesses econômicos dessa meia dúzia de proprietários e de seus gordos anunciantes. Assim, a qualidade, diversidade e veracidade da informação se transformam em sub item dentro do foco financeiro.
Estudos recentes demonstram que o faturamento das empresas de comunicação já representa mas do que 10% da economia mundial, e que vem crescendo quanto mais vinculado à indústria armamentista, ao sistema financeiro e ao poder imperial. Como o centro de tais conglomerados é o lucro, o desavisado consumidor dos seus venenos em forma de notícia acaba transformado em produto. Assim, como já foi dito, “os meios de comunicação deixaram de vender informação ao público e passaram a vender o público a seus anunciantes”.
Mais do que garantir ao cidadão o direito de acesso, a democratização significa dar condições para que a sociedade possa influir na produção do conteúdo dos meios, abrindo espaço para suas demandas, seus anseios, projetos e esperanças. Por isso defendemos o fortalecimento das redes públicas de rádio e televisão, o florescimento de rádios e televisões comunitárias, a destinação de verbas publicitárias governamentais também aos pequenos jornais, única forma de dar vida à lei que afirma ser o acesso à comunicação um direito de todos.
Em nossa gestão temos investido bastante na comunicação com a sociedade, seja por meio dos programas de televisão e rádio da CUT ou do nosso Portal do Mundo do Trabalho. Acreditamos que a partir destas trincheiras poderemos seguir avançando, com o apoio e a participação de todos. Mas para que a mudança ocorra, de verdade, em profundidade, precisamos que o governo federal se some conosco na batalha pela democratização, sem o que ficaremos reféns da verdadeira lei da mordaça que impede a sociedade brasileira de se ver.
A democratização dos meios de comunicação será a Lei Áurea do século XXI, rompendo os grilhões que mantêm ainda milhões de brasileiros aferrados a se intoxicar diariamente com informações transgênicas, fabricadas com a química da mentira, da baixa-estima e da alienação. Neste contexto, a ridícula cobertura da ocupação do Congresso é apenas uma agulha no palheiro.
Por Antônio Carlos Spis, secretário nacional de comunicação da CUT