| A presença dos intelectuais na vida pública não é um acontecimento recente: Tales de Mileto, Parmênides de Eléia e Heráclito de Éfeso foram legisladores em suas cidades. Platão dedicou parte de sua vida a mudar o governo de Siracusa e Aristóteles foi tutor de Alexandre. Há marcos que podem nos ajudar a avaliar a importância dessa presença pública: o papel dos philosophes na Ilustração e na Revolução Francesa, o fato de Marx haver dedicado uma obra a eles, A Ideologia Alemã, o surgimento do conceito de “intelectual orgânico” na obra de Gramsci. Desde o ‘caso Dreyfus’ e do artigo de Zola conclamando os intelectuais a tomar posição, a participação deles na agitação política e seu papel nas vanguardas culturais tornaram-se parte da vida social do Ocidente. A polêmica entre Sartre e Merleau-Ponty, nos anos de 1950, evidenciou a questão do engajamento político, do qual a década de 1960, no mundo inteiro, deu mostras de vigor. Hoje e cada vez mais, ao contrário, os intelectuais identificam-se com os universitários e os pesquisadores de laboratórios e centros de pesquisa, retraindo-se da vida pública. Por quê? É o que tentaremos responder. O projeto histórico moderno apostou na autonomia racional das artes e do saber. Essa aposta foi determinante para o surgimento da figura do artista e do pensador independentes das instituições eclesiástica, estatal e acadêmico-universitária, com autoridade teórica e prática para criticar a ordem vigente. Assim a autonomia racional propiciou, no século 19, o aparecimento daqueles que, durante o Caso Dreyfus, Zola convocou à cena pública com um nome novo – os intelectuais – e cuja intervenção no espaço público possui duas marcas principais: a defesa de causas universais, isto é, distantes de interesses particulares, e a transgressão da ordem vigente. Essas marcas fizeram com que, no século 20, surgisse a figura do intelectual engajado, ou seja, do intelectual que intervém publicamente se colocando à esquerda no espectro político e tendo como horizonte o ideal de uma sociedade justa e igualitária – a sociedade socialista. Hoje, os intelectuais não estão silenciosos. Ao contrário, graças aos meios de comunicação e de informação eletrônica, aparecem constantemente na esfera pública. Todavia, o intelectual engajado está quieto, e somos levados a indagar quais as possíveis causas de seu silêncio. A primeira, certamente, é o refluxo mundial dos ideais socialistas, sob os efeitos do totalitarismo nos países ditos comunistas, do fracasso da glasnost na União Soviética e do recuo da socialdemocracia, com a adoção da chamada ‘terceira via’ ou do ‘capitalismo acrescido de valores socialistas’, como diz o Partido Trabalhista inglês. O retraimento do intelectual engajado ou seu silêncio não é a recusa de falar, mas a impossibilidade de fazê-lo porque lhe falta um pensamento capaz de desvendar e interpretar as contradições que movem o presente e imaginar um porvir. A segunda causa é o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado, sob os imperativos da nova forma de acumulação do capital, conhecida como neoliberalismo. Esse encolhimento aparece na conversão de direitos econômicos e sociais em serviços definidos pela lógica de mercado, transformando o cidadão de sujeito de direitos em mero consumidor de serviços. Ora, a democracia institui a cidadania como ação de contra-poderes sociais para a criação e garantia de direitos, graças à participação nas lutas políticas. Se os direitos são privatizados em serviços vendidos e comprados como mercadorias, o cerne da democracia é ferido mortalmente e a despolitização da sociedade é uma decorrência necessária. A despolitização substitui a figura do intelectual pela do especialista O recuo da cidadania e a despolitização produzem a substituição do intelectual engajado pela figura do especialista competente, cujo suposto saber lhe confere poder para, em todas as esferas da vida social, dizer aos demais o que devem pensar, sentir, fazer e esperar, dando-lhes um receituário para viver. Sob a ideologia da competência, a política se torna uma técnica de especialistas que anula o espaço público ao destruir um princípio fundamental da democracia: a competência de todos os cidadãos para opinar e julgar politicamente. O intelectual engajado aposta na participação política dos cidadãos. Hoje, porém, essa aposta é desqualificada, pois a ideologia da competência faz crer que há os que entendem de política e os que dela não entendem, devendo silenciar. A terceira causa é a nova forma de inserção do saber e da tecnologia no modo de produção capitalista: deixaram de ser mero suporte do capital para se converter em forças produtivas, agentes de sua acumulação. Pensadores e técnicos se tornaram agentes econômicos diretos. A economia contemporânea se funda sobre a ciência e a informação, graças ao uso competitivo do conhecimento, da inovação tecnológica e da informação nos processos produtivos. Chega-se mesmo a falar em ‘capital intelectual’ como o principal princípio ativo das companhias. O saber emprega intensamente redes eletrônicas para se produzir e se transformar em tecnologia e submete-se a controles de qualidade segundo os quais deve mostrar sua pertinência social demonstrando sua eficácia econômica. Além da dependência das universidades e dos centros de pesquisa em relação ao poder econômico, é preciso lembrar que esse poder se baseia na propriedade privada dos conhecimentos e das informações, de sorte que estes se tornam secretos e constituem um campo de competição econômica e militar sem precedentes. Tanto a produção quanto a circulação das informações estão submetidas a imperativos que escapam do controle dos produtores do saber e do controle social e político dos cidadãos. A nova situação do saber como força produtiva determina a heteronomia do conhecimento e da técnica, que passam a ser determinados por imperativos exteriores ao saber, bem como a heteronomia dos cientistas e técnicos, cujas pesquisas dependem do investimento empresarial. Ora, a autonomia racional era a condição tanto da qualidade do saber como da autoridade do intelectual engajado para criticar a ordem vigente. A quarta causa é o surgimento da ideologia pós-moderna Assistimos, hoje, a uma transformação sem precedentes na experiência do espaço e do tempo, designada por David Harvey como a ‘compressão espaço-temporal’, ou seja, o fato de que a fragmentação e a globalização da produção econômica engendram dois fenômenos contrários e simultâneos: de um lado, a fragmentação e dispersão espacial e temporal e, de outro, sob os efeitos das tecnologias eletrônicas e de informação, a compressão do espaço – tudo se passa aqui, sem distâncias, diferenças nem fronteiras – e a compressão do tempo – tudo se passa agora, sem passado e sem futuro. Na verdade, fragmentação e dispersão do espaço e do tempo condicionam sua reunificação sob um espaço indiferenciado e um tempo efêmero, ou sob um espaço que se reduz a uma superfície plana de imagens e sob um tempo que perdeu a profundidade e se reduz ao movimento de imagens velozes e fugazes. Paul Virilio fala em acronia e atopia, ou a desaparição das unidades sensíveis do tempo e do espaço da percepção, sob os efeitos da revolução eletrônica e informática. A profundidade do tempo e seu poder diferenciador desaparecem sob o poder do instantâneo. Por seu turno, a profundidade de campo, que define o espaço perceptivo, desaparece sob o poder de uma localidade sem lugar e das tecnologias de sobrevôo. Vivemos sob o signo da telepresença e da teleobservação, que impossibilitam diferenciar entre a aparência e o sentido, o virtual e o real, pois tudo nos é imediatamente dado sob a forma da transparência das aparências, apresentadas como evidências. Nossa experiência desconhece qualquer sentido de continuidade e se esgota num presente vivido como instante fugaz. Uma vez perdida a autonomia, que resta, senão o silêncio? A experiência social contemporânea suscita um distanciamento crítico por parte do intelectual engajado, cujo silêncio é substituído pela ideologia pósmoderna, comemoração entusiasmada da dispersão e fragmentação do espaço e do tempo, da impossibilidade de distinguir entre aparência e sentido, imagem e realidade. Essa ideologia toma a fragmentação econômica e social como um dado positivo e último, concebendo a sociedade como uma rede de comunicações lingüísticas, uma linguagem composta por uma multiplicidade de diferentes jogos, cujas regras são incomensuráveis, cada jogo entrando em competição com os outros. Ciência, política, economia, filosofia, artes são jogos de linguagem, ‘narrativas’ em disputa. Do ponto de vista da política, a concepção pós-moderna identifica racionalismo, capitalismo e socialismo: a razão moderna é exercício de poder ou o ideal moderno do saber como dominação da natureza e da sociedade; o capitalismo é a realização desse ideal por meio do mercado; e o socialismo o concretiza por meio da economia planejada. Trata-se, portanto, de refutar o racionalismo, o capitalismo e o socialismo, seja desvendando e combatendo a rede de micropoderes que normalizam capilarmente toda a sociedade, seja se erguendo contra a territorialidade das identidades orgânicas que sufocam o nomadismo das singularidades, seja, enfim, combatendo os investimentos libidinais impostos pelo capitalismo e pelo socialismo, isto é, mudando o conteúdo, a forma e a direção do desejo. A revolta agrada. É sempre bom ouvir as coisas. Como estão, vão mal Merleau-Ponty escreveu certa vez que todo mundo gosta que o intelectual seja um revoltado. A revolta agrada porque é sempre bom ouvir que as coisas como estão vão muito mal. Dito e ouvido isso, a má consciência se acalma e toda gente, satisfeita, volta aos seus afazeres. O quadro que aqui esbocei poderia parecer um grito de revolta contra o mal. No entanto, como intelectual engajada, quero aqui fazer minhas as palavras deste filósofo ao dizer que ‘o mal não é criado por nós nem pelos outros, nasce do tecido que fiamos entre nós e que nos sufoca. Que nova gente, suficientemente rija, será paciente o bastante para refazê-lo verdadeiramente? A conclusão não é a revolta, é a virtù sem qualquer resignação’. Marilena Chaui é professora de filosofia na USP. Publicou, entre outros, os livros: A nervura do real: Imanência e liberdade em Espinosa; Da realidade sem mistério ao mistério do mundo e Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, além de ensaios em Os sentidos da paixão, O olhar, O desejo, Ética, Artepensamento, A crise da razão, Brasil 500 anos: A descoberta do homem e do mundo e Brasil 500 anos: A outra margem do Ocidente, todos pela Companhia das Letras. Neste artigo, a filósofa faz a síntese da conferência para o ciclo ‘O Silêncio dos Intelectuais’ |