Desvalorização e aposentadoria são riscos para futuro da educação

Aos 58 anos, Ana Jusceia Albano Acosta acaba de se aposentar de um de seus dois padrões na rede pública estadual do Paraná. Mas a professora ainda precisa trabalhar por mais cinco anos para se aposentar do segundo padrão. Após quase três décadas de magistério, outra professora, Joice Barreiros, já adquiriu os requisitos para se aposentar voluntariamente, mas continua trabalhando para complementar a renda com o abono de permanência.

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A situação ilustra uma das contradições atuais da carreira docente. Mesmo depois de décadas de trabalho, a aposentadoria pode não representar uma condição financeira suficiente para deixar a sala de aula. Os relatos revelam histórias de amor pela profissão, mas também de preocupação com as consequências da política educacional aprofundada no governo Ratinho Jr., como sobrecarga, pressão por resultados e desvalorização salarial, e com as condições oferecidas às novas gerações de professoras(es).

Ana considera que a perspectiva de redução significativa da renda faz com que muitos profissionais adiem a saída da rede porque temem não conseguir manter suas condições de vida. “Aposentadoria que reduz praticamente metade de seu salário, que faz com que a maioria não consiga se aposentar por temer não conseguir sobreviver com a aposentadoria”, conta.

Joice diz que já reuniu a documentação, incluindo a média salarial dos anos trabalhados como CLT, e encaminhou ao setor de recursos humanos. “Estou prestes a aposentar, porém continuo trabalhando porque solicitei o abono permanência, o qual já estou recebendo e faz uma diferença no orçamento, pois trabalho 20 horas. Só não defini a aposentadoria ainda porque o salário vai reduzir muito”, explica.

As regras previdenciárias do Paraná foram alteradas pela reforma estadual do governo Ratinho Jr., iniciada em 2019 e regulamentada posteriormente. Dependendo da data de ingresso no serviço público e da regra utilizada, a(o) professora(or) pode não ter direito à antiga integralidade e paridade, e o benefício pode ser calculado pela média das remunerações.

Por isso, os efeitos financeiros da aposentadoria variam conforme a situação funcional e previdenciária de cada servidora. Além dessas mudanças, o governo aumentou a alíquota de contribuição, de 11% para 14%, taxação que passou a incidir, inclusive, sobre o valor que ultrapassa três salários mínimos no benefício de quem já se aposentou.

A APP-Sindicato foi contrária a todas as alterações e tem cobrado o fim do desconto previdenciário sobre os rendimentos das(os) aposentadas(os), assim como a aprovação de uma lei estadual estabelecendo a obrigatoriedade de reposição anual das perdas da inflação para as(os) aposentadas(os) sem paridade.

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Uma profissão cada vez mais difícil de renovar

Os relatos das educadoras revelam também uma preocupação que ultrapassa os muros das escolas: o alerta sobre o risco de, no futuro, não haver professoras(es) suficientes para atuar nas salas de aula. Uma nova edição do estudo Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, divulgado em setembro pelo Instituto Semesp, ajuda a dimensionar o problema.

De acordo com o levantamento, a renovação do quadro docente do Ensino Médio no Brasil vem caindo de forma acelerada. Entre 2015 e 2025, o número de professoras(es) com até 24 anos caiu 31,1%, enquanto o contingente com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. No mesmo período, o número de professoras(es) concursadas(os) caiu de cerca de 305 mil para 255 mil.

Um dos principais indicadores apresentados pela pesquisa é a chamada taxa de renovação docente, calculada a partir da relação entre professoras(es) de até 24 anos e aquelas(es) de 60 anos ou mais. Quanto menor essa taxa, maior o sinal de dificuldade de reposição do quadro. 

No Brasil, em 2015 havia praticamente um docente jovem para cada profissional com 60 anos ou mais. A taxa era de 0,95. Em 2025, o índice caiu para 0,32. Mantida a tendência, a projeção para 2040 é de apenas um docente jovem para cada seis professoras(es) com 60 anos ou mais.

 No Paraná, utilizando os dados do Censo Escolar e aplicando a mesma metodologia do Instituto Semesp, o indicador apresentava situação positiva em 2015, com 1,2 docente jovem para cada profissional com 60 anos ou mais. Já em 2025, a taxa caiu pela metade, despencando para 0,6.

Ainda que o indicador estadual seja maior que o nacional, o resultado evidencia não só que houve uma piora em relação a dez anos atrás, mas também que a dificuldade de entrada de novas gerações na profissão é uma realidade que atinge de forma preocupante a rede pública estadual paranaense.

Mais cobranças, menos tempo para ensinar

A situação também é explicada pela percepção das(os) próprias(os) professoras(es) sobre as condições da profissão. Além dos 74,8% que citam a falta de valorização como um dos principais problemas, 62,8% mencionam a falta de disciplina e interesse das(os) estudantes, 61,3% apontam falta de apoio e reconhecimento social e 58,3% citam a baixa remuneração.

 É justamente nesse ponto que as histórias de Joice e Ana encontram outra realidade do magistério. Nas quase três décadas de sala de aula, Joice acompanhou uma transformação profunda da escola. A tecnologia passou a fazer parte da rotina, estudantes passaram a acessar informações por diferentes meios e as(os) professoras(es) precisaram incorporar novas ferramentas ao trabalho pedagógico.

Mas, na avaliação dela, as mudanças vieram acompanhadas de uma multiplicação das responsabilidades. “O professor precisa responder simultaneamente aos estudantes, às demandas do colégio, às expectativas da mantenedora e ainda preservar sua saúde e dar atenção à vida pessoal”, relata Joice.

Ana descreve uma realidade semelhante. No seu caso, o problema aparece de maneira concreta na quantidade de disciplinas que precisa preparar. Treze componentes curriculares diferentes exigem planejamento, atualização e elaboração de materiais. Segundo ela, o tempo destinado à hora-atividade não é suficiente para dar conta de todas as tarefas.

Mas essa é apenas uma parte do problema, porque a sobrecarga não se resume à quantidade de aulas, mas envolve planejamento, registros, plataformas, avaliações, metas, formação, reuniões e uma série de demandas que passaram a ocupar espaço crescente na rotina escolar.

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“Cobranças e nada de retorno, salário defasado, pais defendendo filhos e culpando o professor e a escola, ambiente difícil”, enumera. Ana conta que já viu colegas adoecidos, trabalhando mesmo sem condições, e professores enfrentando crises de pânico antes de entrar em determinadas turmas. “Tudo isso causa muita dificuldade e desmotivação para exercer a profissão”, afirma.

O amor pela profissão não desapareceu

Para além de trajetórias individuais, o contexto das duas docentes é também o de milhares de professoras(es) que estão há décadas sustentando a escola pública e resistindo a ataques contra direitos da categoria. Em meio a tudo isso, chama a atenção que nenhuma das duas abandonou a convicção de que a educação é importante.

Ana tem 58 anos, iniciou a dar aulas em 1992 e diz que sonhava em ser professora desde criança. Joice, por sua vez, tem 53 anos e começou a lecionar em 1998. Conta que, antes mesmo de cursar Letras, havia feito magistério no Ensino Médio. “Amo minha profissão e acredito na importância do meu trabalho para a transformação social”, afirma.

Mas ambas relatam que as condições concretas de trabalho tornaram a profissão muito mais difícil. Joice conta que já chegou a pensar em mudar de profissão por questões financeiras. O apoio da família, afirma, foi fundamental para que permanecesse na carreira.

Ela conta que, muitas vezes, o reconhecimento que recebe não vem da política educacional, da remuneração ou das condições de trabalho, mas dos próprios estudantes quando dizem: “Obrigada pela aula, professora. Sua aula foi muito boa.” “Consegui entender o conteúdo.” “Minha mãe foi sua aluna e te mandou um abraço.” São essas experiências que, segundo Joice, fazem com que ela perceba que seu trabalho teve significado.

Mas existe uma diferença entre sentir-se valorizada por quem aprendeu com seu trabalho e ter uma profissão socialmente valorizada. “A categoria é desvalorizada com remuneração insuficiente, aumento de atribuições, precarização das condições de trabalho e desgaste emocional”, afirma.

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Joice ainda recomenda a profissão aos jovens. Mas ressalva que é preciso conhecer a realidade antes de escolher a docência. “Recomendo sem esconder os desafios enfrentados pela profissão, para que escolham a docência por vocação, desde que a escolha corresponda ao projeto de vida traçado por eles”, afirma.

Para Ana, a atividade docente precisa ser valorizada em todos os aspectos. “Olhar com importância para o profissional, priorizar a saúde física e mental, reduzir cobranças e assédios, garantir reposição salarial anual, transformar benefícios e remuneração para cálculo de aposentadoria”, afirma.

O futuro da escola passa pela valorização das(os)s professoras(es)

As duas professoras chegaram à profissão em momentos diferentes, atravessaram mudanças tecnológicas, transformações sociais e diferentes governos. Depois de tantos anos de trabalho, Joice e Ana poderiam falar apenas sobre seus próprios planos de aposentadoria. Mas ambas preferem olhar para quem permanece.

Joice deixa um recado direto ao próximo governador do Paraná. “Valorize os profissionais de educação, atribua uma remuneração digna, escute quem está no chão da escola todos os dias. Nenhuma plataforma substitui um bom professor.”

Ana faz um alerta igualmente importante. “Precisamos de um governo que reveja o que está ocorrendo na educação. Que deixe educadores fazerem seu trabalho, que a grande maioria sabe fazer muito bem. Que se preocupe menos com índices e mais com condições de trabalho para a aprendizagem.”

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