Neste 29 de agosto, às vésperas de completar 38 anos da repressão na Praça Nossa Senhora de Salete, a história da educação paranaense tomou novamente o centro da capital. Professoras(es) e funcionárias(os) de escola, da ativa e aposentadas(os), ocuparam o calçadão da Boca Maldita em um ato de emoção, memória e denúncia. Mais do que relembrar a repressão sofrida no 30 de Agosto de 1988, no governo Álvaro Dias, a mobilização uniu gerações para transformar a dor do passado em força política e cobrar a defesa do ensino público nas urnas.

“Todo os anos nós fazemos a memória da violência de 30 de Agosto de 1988, mas também para trazer as violências que a gente vivencia a cada ano em cada governo. Neste ano, a gente traz a denúncia de para onde foi o dinheiro da educação no governo Ratinho Júnior. Nós estamos nas ruas sempre na defesa da educação, das professoras e professores, das funcionárias e funcionários e dos nossos estudantes”, enfatiza a presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto. Ela alerta a população para eleger candidaturas que tenham compromisso real com a educação pública, democrática, crítica e emancipadora, com salários dignos e que não tratem educadoras(es) como adversárias(os).
Vozes da resistência

“Lembrar o 30 de Agosto significa trazer à tona essa luta histórica da APP-Sindicato em defesa da educação pública de qualidade e a suma pelo todo, pelo respeito e pela valorização dos trabalhadores e trabalhadoras da educação. Eu estava em 30 de Agosto de 1988 e me fez entender que não dá para ser educadora nesse país sem ser militante da educação, sem fazer a defesa em transição”, afirma a secretária Educacional da APP-Sindicato, professora Cida Reis.

“A presença do 30 de Agosto de 1988 vive na memória que não se apaga e na coragem de quem não esquece. Na APP-Sindicato transformamos a dor em semente e a saudade em luta por uma educação pública digna, humana e libertadora. Sua lembrança segue viva em cada passo que damos e que cobramos dos governantes em defesa da nossa educação. A ferida cicatriza e fortalece para quem acredita na luta coletiva”, reflete a secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato e professora aposentada, Cláudia Gruber.

“Estamos rememorando o 30 de Agosto para que nunca mais aconteça. A educação pública tem sofrido não só aqui no Paraná, mas em todo o Brasil, um ataque direto ao cotidiano das escolas, onde as educadoras e educadores estão perdendo as condições de trabalho. O ataque tem que parar e precisamos de mais luta para alcançar os nossos direitos e para ter uma escola pública, laica, de qualidade e com trabalhadoras e trabalhadores com saúde dentro das escolas”, explica o secretário de Sindicalizados da APP-Sindicato, professor Daniel Matoso.

“Iniciei minha carreira no ano de 1979 quando tínhamos progressão e conseguíamos avançar. Depois que começou a mudar e que professor passou a não ser mais valorizado. Houve o 30 de Agosto que acabou com a nossa carreira e que deixou muitos educadores e educadoras até doentes pelo fato da violência sofrida. Porém, até hoje, continuamos na luta e correndo atrás porque não está fácil sobreviver”, disse a dirigente de núcleo Curitiba Norte e professora aposentada, Regina de Fátima Felini.

“Estamos aqui na Boca Maldita para relembrar e dizer que nunca vamos esquecer o dia em que fomos massacrados pelo governador Álvaro Dias. É dia de luta e luto, luto e luta pela escola pública. Jamais esqueceremos o que aconteceu naquele dia. E também hoje, com o nosso governador, Ratinho Júnior, descobrimos outros tipos de violência. A nossa categoria está adoecendo de tanta cobrança, de tantos números. Nossos alunos não são mais estudantes, agora são meros números para vencer o IDEB. Hoje precisamos melhorar, lutar para que nossa educação volte a ser humana e democrática”, destaca a coordenadora do Coletivo Nacional e Estadual de Trabalhadores e Trabalhadoras com Deficiência da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Leninha Taurinho, também secretária da Mulher Trabalhadora e Direitos LGBTI+ do Núcleo Sindical Metronorte.

“O 30 de Agosto de 88 foi a minha primeira greve e nunca mais deixei de participar. Sempre estou na luta, mesmo aposentada há 10 anos. Porque se eu não continuar, o meu salário não vai melhorar. Na época quando entrei, o diretor da minha escola não fazia greve e nem os professores porque tinham medo dele. Ele me disse que não teria salário porque descontaria todas as minhas faltas. Mesmo assim, fui para a luta, briguei, levei bala e chumbo. Foi daquele terrível 30 que a gente nunca mais esqueceu. Mas entendi que tinha que lutar por uma coisa que era minha, que tinha feito um concurso, que merecia ganhar o salário e tinha que lutar por ele”, relembra a funcionária de escola aposentada, Lenise Fátima Rotava.
Juventude da luta
“É muito importante que a gente relembre do descaso do dia 30 de Agosto de 1988. O descaso que Álvaro Dias fez com a educação, a resposta militar que ele deu para estudantes e sindicatos. Relembrar porque é uma luta, querendo ou não, que a gente continua batalhando todos os dias com o descaso que o Ratinho Júnior vem fazendo com a educação, com a plataformização e diversos projetos dentro da nossa educação paranaense. Não só com a paranaense, mas com a brasileira, porque sabemos o que Feder fez para destruir ainda mais a educação em São Paulo. Ou seja, é uma luta de todo dia para sempre lembrar”, pontua a presidenta da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES), Juliane Isabeli Rodrigues Vais.

Farsa da propaganda x Realidade da precarização
Enquanto a propaganda oficial alardeia que o Paraná tem a “melhor educação”, a categoria levou à população dados que expõem as escolhas do governo Ratinho Jr. Entre os pontos destacados estão a explosão da terceirização, que somou R$ 1,126 bilhão destinados à Secretaria da Educação (Seed-PR) em 2025, o que representa um salto de 144 vezes em relação a 2019.
O estado também registra o terceiro pior ritmo de investimento em educação no país (76,1% frente à média dos estados de 111,9%).No cenário salarial, o vencimento inicial da carreira paranaense é o terceiro pior do Brasil, com valor 20,8% abaixo do Piso Nacional. Outra denúncia recai sobre os ataques às(aos) aposentadas(os), marcados por uma reforma da previdência severa, confisco salarial e uma defasagem inflacionária acumulada em mais de 46%.
Walkiria enfatiza que não é falta de dinheiro, é escolha de prioridade quando o governo tira da valorização das(os) professoras(es) e funcionárias(os) para entregar a empresas terceirizadas e plataformas digitais.
O que a APP-Sindicato quer?
A APP-Sindicato defende uma escola pública, democrática e emancipadora, priorizando o investimento direto na infraestrutura, no ensino e na recomposição salarial das(os) educadoras(es), sem o desvio de recursos públicos para o lucro privado. A entidade exige concursos públicos para o fim da terceirização, além de autonomia pedagógica, sem assédio por metas ou plataformas, e uma gestão 100% pública voltada para a cidadania.
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