Enquanto as(os) professoras(es) da rede estadual do Paraná amargam um dos piores salários do país, companhias privadas que recebem recursos da educação pública comemoram os lucros. Um exemplo disso é o Grupo Salta, controlador de uma das empresas contratadas pela gestão do governador Ratinho Jr. para atuar no Programa Parceiro da Escola, a Impulso. O conglomerado divulgou recentemente um relatório aos seus acionistas destacando resultados como receita líquida de R$ 1,7 bilhão e lucro líquido de R$ 106 milhões, no acumulado do primeiro semestre de 2026.
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Para a presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto, os números confirmam a denúncia da entidade de que o governador Ratinho Jr. criou o programa só para atender interesses do setor privado. “O dinheiro das nossas escolas não pode ser utilizado para dar lucro a empresários, mas essa é a prioridade do governador Ratinho Júnior. Acionista não dá aula, não limpa a escola e nem faz merenda. Mas são eles que estão ficando com os recursos que deveriam ser aplicados com transparência na melhoria de todas as escolas e na valorização dos profissionais da educação”, critica.

De acordo com o documento divulgado no mês de agosto, o grupo educacional encerrou o segundo trimestre do ano com um total de 175,9 mil alunos, 6,2% a mais do que no mesmo período do ano anterior, em suas 243 escolas. O documento destaca que, deste total, 27,4 mil alunos (15,6%) são “da marca Impulso nas 39 escolas que operamos em parceria com o estado do Paraná”.
Ainda segundo o balanço, a receita líquida no segundo trimestre registrou crescimento de 9,1%, comparado com mesmo período do ano anterior. O resultado é atribuído “à boa performance das escolas do portfólio e das aquisições realizadas nos últimos 12 meses”. Já no acumulado dos seis primeiros meses do ano, a receita líquida de R$ 1,747 bi representou um aumento de 12,3% em relação aos números do mesmo período do ano passado.
Em contrapartida ao sucesso financeiro dos empresários, o salário das(os) professoras(es) que atuam na rede estadual de ensino do Paraná é um dos piores do país. O valor de R$ 5,1 mil mensais para uma jornada de 40 horas semanais, pago pelo governador Ratinho Jr. às(aos) educadoras(es) no início da carreira, está muito abaixo dos R$ 7,6 mil que recebem as(os) profissionais de outras áreas do Estado com mesma exigência de nível de ensino e carga horária.

O valor fica ainda mais distante quando a comparação é feita com os R$ 13 mil recebidos pelas(os) professoras(es) de Mato Grosso do Sul, estado que lidera o ranking das unidades da federação que melhor remuneram as(os) educadoras(os) no Brasil.
A equiparação salarial das(os) professoras(es) com as(os) demais servidoras(es) do Paraná foi pauta da campanha salarial aprovada pela categoria neste ano e levada pela APP-Sindicato ao governador e deputados estaduais. Uma proposta chegou a ser elaborada por uma comissão composta por diretoras(es) do sindicato e representantes das secretarias da Educação, Fazenda e Administração.

Mas Ratinho Jr. não autorizou o envio do projeto de lei para votação na Assembleia Legislativa. Com a decisão do governador, a presidenta da APP-Sindicato afirma que o magistério é a única carreira pública do Paraná que não passou por reformulação nos últimos anos, mantendo os salários desta categoria defasados em relação às demais.
Lucro para empresário
O Grupo Salta é um conglomerado educacional que reúne dezenas de redes e 28 marcas de escolas privadas. Atua na educação básica em 19 estados, incluindo o Distrito Federal. Desde 2025, também passou a cuidar da gestão administrativa de escolas públicas do Paraná por meio do Programa Parceiro da Escola.
Entre os investidores ligados à estrutura acionária do grupo está a Gera Capital, da qual o bilionário Jorge Paulo Lemann é sócio. Lemann era um dos controladores das Americanas quando veio à tona, em 2023, a notícia de um rombo de R$ 20 bilhões no caixa da empresa. Uma CPI chegou a ser instalada na Câmara dos Deputados, mas os trabalhos foram concluídos sem apontar responsáveis por um dos maiores escândalos contábeis da história do Brasil.
Embora não exista relação direta entre as Americanas e o grupo Salta, o sucesso financeiro de Lemann, mesmo após o rombo que levou a varejista perder 99% do valor, também ajuda a ilustrar a crítica da APP-Sindicato sobre o conflito entre os interesses do setor privado e a finalidade dos recursos públicos destinados às políticas sociais, como a educação.
Três anos depois da descoberta do prejuízo bilionário das Americanas, Lemann permanece entre os primeiros da lista das pessoas mais ricas do Brasil e até aumentou sua fortuna. Seu patrimônio saltou de R$ 80,26 bilhões, em 2023, para os atuais 103,5 bilhões, segundo dados da revista Forbes.
A fixação e a preocupação com os lucros foram, inclusive, objeto de manifestação das empresas durante uma audiência pública, em setembro de 2024, que antecedeu o processo licitatório do Parceiro da Escola. “Eu fico muito preocupado com a parte de custos justamente por entender que o projeto não vai parar em pé, uma vez que a iniciativa privada vai ter prejuízo”, disse um dos participantes da audiência, Jean Pierre Neto. Segundo ele, “para que esse projeto seja viável, ele não pode gerar prejuízo para a iniciativa privada”.
Levantamento da APP-Sindicato à época, apurou que o governo estimava pagar R$ 800 por aluno(a) por mês às empresas, quantia 100 vezes maior do que a média que o próprio Estado investe por estudantes nas escolas sem participação da iniciativa privada na gestão administrativa. Mesmo com essa diferença, os(as) participantes da audiência foram uníssonos em criticar os cálculos do governo, indicando que os empresários não estavam satisfeitos com a margem de lucro projetada.
Inconstitucionalidade
O Parceiro da Escola foi implantado inicialmente em duas escolas, em 2023, como um projeto-piloto. No ano seguinte, a Lei 22.006/2024, de autoria do governador Ratinho Jr., autorizou a expansão para mais de 200 escolas. Atualmente, 95 unidades integram o programa, já que a maioria das comunidades escolares consultadas rejeitou a entrega da gestão administrativa dos estabelecimentos para a iniciativa privada. Além da Impulso, mais duas empresas, a Tom Educação e a Apogeu, foram contratadas para atuar no programa.

A proposta foi combatida desde o início pela APP-Sindicato. Mais de 20 mil educadores se reuniram em Curitiba, em junho de 2024, durante uma greve convocada pelo sindicato na tentativa de barrar a aprovação do projeto de lei. O programa também é objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7684, ajuizada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) Supremo Tribunal Federal (STF).
O último movimento no processo foi registrado em maio, quando o ministro Nunes Marques, relator do caso, declarou inconstitucionais a contratação de professores(as) pelas empresas e a proibição de estudantes votarem na consulta à comunidade, medida essa imposta pela Secretaria da Educação (Seed) para favorecer o resultado das votações aos interesses do governo e das empresas. O julgamento, iniciado no plenário virtual da corte, foi suspenso após um pedido de vista do ministro Alexandre de Morães.
Denúncias
As empresas contratam professores(as) e funcionários(as) sem concurso público e parte do lucro é condicionado ao desempenho dos(as) estudantes. Para Walkiria Mazeto, além de ilegal, essas práticas interferem diretamente em todas as áreas pedagógicas da escola, pois possibilitam, inclusive, práticas de pressão e assédio sobre as(os) educadoras(es) para manipular indíces educacionais e, consequentemente, aumentar os valores que as empresas recebem do governo.
Em meio à discussão sobre a inconstitucionalidade, também surgem denúncias sobre o programa. A mais recente é de um possível esquema de favorecimento e violação dos princípios da administração pública. A APP-Sindicato protocolou uma representação junto à Seed, diante da suspeita de que diretores(as) de escolas estaduais que integram o Programa Parceiro da Escola teriam recebido pacotes turísticos de luxo, incluindo passagens aéreas, hospedagem e ingressos para os jogos da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos. A conta supostamente foi bancada por empresas que são concessionárias privadas e lucram com a gestão da rede estadual de ensino paranaense.

Salas sujas e fezes de pombos na quadra esportiva preocupam no Colégio Natalia Reginato, que teve a gestão transferida para empresa privada – Foto: divulgaçãoProfessores(as) dos colégios que passaram a funcionar neste modelo afirmam que demissões ocorrem sem motivo justo, gerando rotatividade e perda de vínculo com os(as) estudantes e as escolas. Há reclamações de salas sujas e má qualidade do preparo da merenda, porque as empresas contratam diaristas e pessoas sem experiência com a rotina escolar. Mães denunciam a aquisição de materiais de baixa qualidade e demora na realização de consertos.
Em junho, diretoras(es) da APP-Sindicato foram verificar uma reclamação e constataram que esgoto a céu aberto e banheiros sem água afetavam a rotina do Colégio Estadual Protásio de Carvalho, uma das escolas entregues ao Programa Parceiro da Escola, em Curitiba. Segundo trabalhadores(as) do estabelecimento de ensino, o esgoto transbordava havia vários dias. O local fica próximo da cozinha e de uma quadra de vôlei utilizada pelos(as) estudantes.

Outro ponto questionado pela APP-Sindicato é o custo do programa e a falta de transparência. “Na escola pública, cada centavo que é gasto pode ser fiscalizado por qualquer pessoa. Já na privatização, não tem prestação de contas. A comunidade não consegue saber como a empresa está gastando o dinheiro público que recebe do governo e até o Tribunal de Contas tem relatado dificuldade para fiscalizar os gastos do governo com esse programa”, afirma Walkiria.
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