Compreender as razões pelas quais parcelas significativas da classe trabalhadora apoiam pautas e candidaturas que retiram seus próprios direitos é um dos maiores desafios da democracia contemporânea. Diante das transformações sociais e do avanço de discursos neoliberais e conservadores, torna-se indispensável investigar as raízes do desencanto e da desarticulação política que afetam o cotidiano do povo trabalhador.
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Neste artigo, o educador e dirigente sindical Nilton Stein recorre ao pensamento de Karl Marx para analisar o conceito de “estranhamento” (Entfremdung) e seus desdobramentos na alienação política atual. A partir dessa chave teórica, o autor convida à reflexão sobre como o resgate da práxis, a formação da consciência de classe e a reconstrução da solidariedade coletiva são caminhos essenciais para transformar o voto em um verdadeiro instrumento de emancipação humana.
Confira o artigo na íntegra:
Estranhamento/Alienação política contemporânea
Chegamos a mais um momento de escolhas políticas, as eleições gerais no Brasil. Momento necessário para a democracia e importantíssimo para o futuro do povo trabalhador brasileiro. Momento que a velha indagação sobre o por que os trabalhadores e as trabalhadoras votam em candidatos que representam ideias e pautas contrárias aos interesses da classe trabalhadora, contrária aos direitos sociais e trabalhistas. Para entender por que há esta situação que leva os trabalhadores e as trabalhadoras votarem contra si mesmo, vamos buscar no pensamento de Karl Marx conceitos que podem nos orientar na compreensão.
Dentre as elaborações teóricas de Karl Marx, o conceito de estranhamento (Entfremdung), articulado à alienação (Entäußerung), consolida-se como fundante para o entendimento da perda de controle do ser humano sobre sua própria atividade vital, seu produto, suas relações interpessoais e sua condição enquanto ser genérico.
Formulado de maneira incisiva nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, o “estranhamento” ultrapassa a dimensão abstrata da filosofia clássica alemã e ganha contornos ontológicos e econômicos concretos, porque refere-se à condição na qual as criações humanas (mercadorias, instituições, ideologias) ganham vida própria e se voltam contra o próprio criador como forças hostis e dominadoras.
À medida que o modo de produção se desenvolve, esse processo de estranhamento transcende os limites do chão de fábrica e permeia as instâncias institucionais, culturais e políticas da vida social. Na contemporaneidade, um dos desdobramentos mais evidentes e complexos dessa dinamicidade é a alienação política, manifestada no fenômeno em que trabalhadores e trabalhadoras elegem representantes políticos que defendem pautas explicitamente contrárias aos seus direitos, ao fortalecimento dos serviços públicos e à proteção das classes populares.
Para compreender o conceito de estranhamento no pensamento de Marx, é necessário resgatar a concepção do trabalho como práxis fundamental de objetivação humana. Em condições não alheadas, o trabalho é a atividade pela qual o indivíduo transforma a natureza de forma livre e consciente, imprimindo nela sua subjetividade e construindo sua própria essência em comunidade. O ser humano diferencia-se dos animais precisamente por ser um “ser genérico” (Gattungswesen), cuja atividade vital é objeto de sua vontade e consciência, permitindo a produção universal, criativa e emancipada. Assim escreve Marx:” A atividade vital consciente distingue o homem imediatamente da atividade vital animal. Justamente, e só por isso, ele é um ser genérico.” (MARX, 2010, p. 84)
No entanto, no modo de produção capitalista fundado na propriedade privada dos meios de produção e no trabalho assalariado, essa relação ontológica se inverte. O trabalho deixa de ser a afirmação do ser humano e transforma-se em sua negação, em vez de desenvolvimento físico e mental, resulta em mortificação e degradação.
Nos Manuscritos de 1844, Marx sistematiza o estranhamento do homem pelo próprio homem como desdobramento direto das dimensões anteriores, quando o ser humano se encontra confrontado consigo mesmo e com o fruto de seu esforço, ele também se afasta dos demais indivíduos. A alteridade deixa de ser espaço de cooperação e passa a ser mediada pela concorrência, pelo cálculo de utilidade e pela lógica mercantil.
Embora formulado inicialmente no âmbito da crítica à economia política, o fenômeno do estranhamento estende suas ramificações por toda a totalidade social. Conforme explicitado por Marx e Engels em A Ideologia Alemã (1846), a classe que detém os meios de produção material detém também o controle sobre os meios de produção intelectual.
A ideologia dominante atua para naturalizar e eternizar as relações sociais de exploração, apresentando os interesses particulares da classe dominante como se fossem os interesses gerais de toda a sociedade.
Desse modo, a consciência dos trabalhadores é sistematicamente atravessada por noções que mascaram a contradição fundamental entre Capital e Trabalho. O fetiche da mercadoria, conceito desenvolvido posteriormente por Marx no Capítulo I de O Capital, faz com que as relações sociais entre pessoas apareçam sob a forma fantasmagórica de relações entre coisas. As estruturas sociais criadas pela própria humanidade passam a ser vistas como leis naturais imutáveis.
Consequentemente, o indivíduo submetido ao estranhamento perde a capacidade de identificar as determinações reais de sua própria condição de vida, de sua precarização, tornando-se vulnerável a discursos políticos que atribuem suas mazelas sociais, em vez do próprio sistema de exploração capitalista.
No cenário sociopolítico contemporâneo, a alienação política atinge níveis críticos, porque o crescente apoio massivo de trabalhadores e trabalhadoras a projetos políticos neoliberais, ultraliberais ou conservadores que propõem a flexibilização e supressão de direitos trabalhistas históricos, o enfraquecimento e a desarticulação da organização sindical, a privatização de serviços públicos essenciais (saúde, educação, previdência e transporte), a redução de políticas sociais de redistribuição de renda e amparo ao desempregado.
Nesse contexto de extrema individualização, enfraquece-se a noção coletiva de pertença à classe trabalhadora. O discurso de políticos que prometem a desregulamentação total, a redução da carga tributária sobre empresas e o fim das leis trabalhistas passa a ser percebido pelo trabalhador alienado não como a perda de suas garantias de proteção social, mas como a remoção de “obstáculos corporativos” para o seu sucesso individual.
Com a fragmentação da consciência de classe decorrente do estranhamento, os canais tradicionais de mediação e formação política perdem força. A pauta econômica — central para o bem-estar material do trabalhador — é intencionalmente colocada em segundo plano por forças liberais e conservadoras.
O debate público é deslocado para pautas de costumes, garantindo a adesão eleitoral por meio do pavor moral, do punitivismo e da promessa de restauração de ordens tradicionais. O trabalhador, alienado de suas reais determinações econômicas, passa a votar guiado por identidades religiosas, éticas ou comunitárias reacionárias, mesmo que o candidato escolhido atropele abertamente seus direitos de subsistência e proteção laboral.
As redes digitais e as plataformas de comunicação de massa transformaram-se nos principais veículos de difusão de ideologia. Operando por meio de bolhas informacionais e algoritmos de engajamento baseados em ressentimento e medo, essas ferramentas catalisam o estranhamento social.
Soluções simplistas e populistas são oferecidas para problemas estruturais complexos: o desemprego e a queda de renda passam a ser atribuídos à corrupção sistêmica (desconectada do modo de produção) ou a gastos sociais com parcelas vulneráveis da população, encobrindo a lógica da acumulação e do lucro privado que devasta o trabalho.
O conceito de estranhamento (Entfremdung) elaborado por Karl Marx revela-se uma ferramenta analítica indispensável e plenamente atual para desvelar a crise da democracia e da representatividade na contemporaneidade. A alienação original no processo produtivo, onde o trabalhador cria o mundo, mas não se reconhece nele, projeta-se na esfera política sob a forma da conversão do poder popular em instrumento de auto-opressão.
Quando um trabalhador deposita seu voto em um representante político cujas ações resultam no desmonte dos direitos sociais, no congelamento de salários, no sucateamento do ensino e da saúde pública ou no favorecimento irrestrito do capital financeiro, realiza-se na esfera eleitoral a mesma lógica do trabalho estranhado, a força vital e cidadã do indivíduo é entregue a uma entidade que se erguerá contra ele como uma potência autônoma, alheia e opressora.
A superação desse fenômeno exige o resgate da práxis, o fortalecimento da formação de consciência de classe e a reconstrução dos laços de solidariedade coletiva. Somente ao compreender as engrenagens reais da exploração capitalista e do estranhamento social a classe trabalhadora poderá retomar seu papel de sujeito histórico e transformar o voto em um instrumento de efetiva emancipação humana.
Nilton A Stein, professor e ex-vereador em Jacarezinho, é Graduado em Direito e em Filosofia com habilitação em História. Mestrando em Educação e Secretário de Formação e Política Sindical e Cultura da APP/Sindicato e Secretário de Assuntos Jurídicos da Federal dos Trabalhadores em Educação (FITE).
REFERÊNCIAS: CHAGAS, Eduardo Ferreira. Diferença entre alienação e estranhamento nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844) de Karl Marx. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 8, n. 16, p. 75-86, 1994. MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2010. MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2007. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010. RANIERI, Jesus. Alienação e estranhamento: a atualidade de Marx na crítica contemporânea do capital. III Conferência Internacional La Obra de Carlos Marx Y Los Desafios Del Siglo XXI, Havana, 2006.


