No texto alusivo à conscientização do Setembro Amarelo, a secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora Cláudia Gruber, destaca que a necessidade de educar nossos meninos e meninas nas escolas exige desarmar a ideia ultrapassada de que o silêncio é sinal de força. Quando a escola abre espaço para escutar dores sem julgamentos, ela deixa de ser apenas um local de transmissão de conteúdo e se torna um refúgio capaz de identificar sinais sutis e interromper tragédias anunciadas.
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Cláudia destaca que a prevenção precisa ir muito além de usar fita amarela em um único mês do ano. Trata-se de construir, diariamente, uma rede de afeto e empatia que ensine nossos jovens a lidar com perdas e frustrações, mostrando que pedir ajuda é, na verdade, um ato de extrema coragem.
Confira o artigo na íntegra e se conscientize.
Sobre carros e meninos
Discutir o “Setembro Amarelo” tornou-se uma atividade praticamente obrigatória em nossas escolas desde meados da década de 2010. Antes disso, não se falava de forma tão aberta e explícita sobre o tema suicídio em sala de aula. Porém, esta é uma pauta de extrema importância quando se trabalha com jovens já que a faixa etária dos 15 aos 29 anos é aquela que mais concentra mortes, ficando atrás apenas das mortes por acidentes de trânsito.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a maioria dos casos, algo entre 70 a 79%, concentram-se no sexo masculino, sendo que no Brasil, ocorrem diariamente cerca de 38 mortes diárias. Em 2025 foram em torno 14 mil notificações consumadas, o que acabou colocando o suicídio como um problema de saúde pública. Lembrando aqui que essas notificações não incluem as tentativas de suicídio nem as subnotificações, o que faria com que esses números tivessem um aumento considerável.
Infelizmente, homens jovens são essa maioria. Até mesmo o movimento “Setembro Amarelo” surge a partir da trágica morte do jovem Mike Emme (17 anos), em Westminster, Colorado, EUA. O rapaz era cheio de vida, cercado de amigos e apaixonado por carros. Em 1994, ele comprou e restaurou um Mustang 68 e o pintou de amarelo. O carro era seu xodó e neste mesmo carro, ele tirou sua vida no dia 08 de setembro daquele mesmo ano. Durante seu velório, os amigos distribuíram àqueles que chegavam uma fitinha amarela com os dizeres: “Se precisar, peça ajuda.” Assim, surgiu movimento “Yellow Ribbon” como forma de conscientizar as pessoas sobre o suicídio.
Por uma inexplicável coincidência, Renato Russo musicou uma tragédia muito parecida com a de Mike lá em 1986. A música chamada “Dezesseis” foi lançada no álbum “Dois” da banda brasiliense Legião Urbana. Ela conta a história de João Roberto (Johnny), rapaz de 16 anos, ao que tudo indica, muito popular na escola e entre as garotas:
Quando ele pegava no violão
Conquistava as meninas
E quem mais quisesse ver
Sabia tudo da Janis
Do Led Zeppelin, dos Beatles e dos Rolling Stones
Sempre muito alegre e cheio de vida, de repente, começou a ficar mais retraído, mais calado, “estranho”, como diriam depois os colegas. Ele deu sinais de que algo não estava bem. Sinais esses muito sutis e praticamente imperceptíveis para muitas pessoas.
Johnny andava meio quieto demais
Só que quase ninguém percebeu
Oh, oh, oh
A ideação suicida muitas vezes se confunde com a depressão. Porém, há uma relação intrínseca entre elas e muitos dos sinais de que algo não vai bem são os mesmos: dificuldade de concentração; isolamento; perda de interesse pelas atividades cotidianas; alterações de sono, humor ou apetite; em alguns casos, consumo de álcool e drogas, dentre outros.
Tais sinais podem ou não ocorrer em quem tem a chamada ideação suicida (pensamentos ou planos de se tirar a própria vida). No caso do personagem, ele age ou de forma imprudente, sem pensar nas consequências ou quiçá de forma proposital, preparando o momento de sua morte. Ele combina um racha de carros na famosa Curva do Diabo, em Sobradinho e o desfecho culmina num final trágico:
E os motores saíram ligados a mil
Pra estrada da morte o maior pega que existiu
Só deu pra ouvir, foi aquela explosão
E os pedaços do Opala azul de Johnny pelo chão
A notícia do acidente e da morte de Johnny pegou todos de surpresa na escola pois, como diziam os amigos, Johnny era “fera demais no volante”. Ao anunciar a tragédia, o diretor faz um alerta sobre o ocorrido, que ele deveria servir de aviso para os que ali estavam e na sequência, ocorre uma homenagem ao jovem no pátio, ao final das aulas:
E na saída da aula, foi estranho e bonito
Todo mundo cantando baixinho
Strawberry fields forever
Strawberry fields forever
Como apontado no início da canção, Johnny era fã dos Beatles, conhecia todas as músicas da banda e a canção “Strawberry fields forever” (1967) torna-se emblemática nesta despedida, já que na música Strawberry fields seria um lugar perfeito, onde não haveria nada com que se preocupar. Um lugar de aconchego, de paz. Um lugar que aplacaria o sofrimento de Johnny já que havia uma suspeita para o acidente fatal: “E o que dizem que foi tudo/ Por causa de um coração partido”.
Mas, não podemos romantizar atitudes extremas. Precisamos estar atentos aos sinais e discutir abertamente essa temática, por mais espinhosa que seja. Culturalmente, falar em suicídio ainda é um tabu porém, os números trazem-nos a necessidade de discutir o assunto em nossas escolas não somente em setembro mas, durante todo o ano letivo.
Enquanto educadores, quanto mais soubermos sobre o assunto, mais alertas poderemos estar já que ninguém está ileso a esse tipo de situação. Em cada ato extremado, há muitas pessoas envolvidas: desde familiares e amigos, até profissionais envolvidos ou na prevenção ou no atendimento das ocorrências.
Segundo a OMS, apenas 38 países têm políticas públicas com estratégias de prevenção ao suicídio e o Brasil é um deles. Dentre tais estratégias temos os canais oficiais de ajuda como o CVV (Centro de Valorização da Vida) e os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Há também as leis federais 15.199/2025 (Setembro Amarelo Oficial), 15.232/2025 (Proteção aos Vulneráveis) e 13.968/2019 que altera o Artigo 122 do Código Penal, tornando crime induzir, instigar ou prestar auxílio tanto para o suicídio quanto para a automutilação.
Em algum momento de profunda tristeza, quando a pessoa não sabe como lidar com perdas ou frustrações, qualquer um pode ter pensado em atentar contra sua própria vida, por isso não se pode sentir medo ou vergonha de buscar ajuda quando algo não vai bem. Muitas vezes, o auxílio pode estar muito mais próximo do que se imagina – acessar o site oficial do CVV ou ligar para o 188 são iniciativas importantes nesses momentos e que precisam ser amplamente divulgadas no ambiente escolar.
Quando analisamos com mais profundidade esta temática, as taxas de mortalidade são mais altas em determinados grupos sociais que estão em maior situação de fragilidade e vulnerabilidade por serem discriminados socialmente. Os números aumentam drasticamente entre refugiados, pessoas em situação de rua, comunidades indígenas, pessoas lésbicas, gays, transgêneros, presos, população negra, migrantes. Só como ilustração: dentre os casos de suicídio entre homens, 75% deles seram negros.
Crianças e adolescentes também são um agrupamento que merece atenção pois são afetados fortemente pelo bullying, cyberbullying, ansiedade, pelo isolamento social que se agravou durante a pandemia do covid-19. Há hoje entre essa parcela da população uma grande incapacidade de lidar com rejeições, frustrações e até mesmo problemas corriqueiros do cotidiano e isso pode ser perigoso.
Ou seja, quando o tema é sucidio, há muitas camadas que não podem ficar de fora, que também requerem nossa atenção. Precisamos pensar e dialogar sobre isso. Precisamos cuidar dos nossos meninos e meninas. Precisamos cuidar também de nós mesmos.
Se você chegou ao fim desse texto, levou em torno de cinco minutos para fazê-lo. Você sabia que, segundo a OMS, a cada 40 segundos, uma pessoa suicida-se no mundo?
O assunto é sério!
* Cláudia Gruber é secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora aposentada do Núcleo Curitiba Sul e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
► Para saber mais: Setembro Amarelo Centro de Valorização da Vida Suicídio: informando para prevenir - Manuais, Protocolos e Cartilhas Legislação Informatizada - LEI Nº 15.199, DE 8 DE SETEMBRO DE 2025 - Publicação Original


