Na consagrada obra O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), da escritora Margaret Atwood, a sociedade autoritária de Gilead não se instalou do dia para a noite. Sem grandes explosões de violência. A tirania começou pelo conformismo diante das pequenas perdas: primeiro veio o bloqueio das contas bancárias, depois o fim da autonomia profissional, a redução de mulheres como a protagonista June Osborne a propriedades do Estado e, por fim, o apagamento total das mulheres do espaço público.
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Para a secretária da Mulher Trabalhadora e dos Direitos LGBTI+ da APP-Sindicato, professora Tatiana Nanci da Maia, a reflexão trazida pelo Dia Internacional da Igualdade Feminina, neste 26 de agosto, funciona como um chamado para a categoria. “A igualdade que a ficção nos tirou não vem pronta e nem é garantida apenas no papel. Ela só existe na prática enquanto houver a nossa organização e uma luta disposta a defendê-la todos os dias”, afirma a dirigente.
A ameaça “silenciosa” nas escolas
Quando se observa o cotidiano das escolas públicas do Paraná, nota-se que o recuo nos direitos não exige um evento dramático. Ele se infiltra nas rotinas por meio da desvalorização contínua e do esgotamento físico e mental das trabalhadoras. Essa dinâmica se manifesta no cerceamento da autonomia pedagógica, quando a professora perde a gestão do seu plano de aula e fica impedida de incentivar o pensamento crítico. É uma forma velada de calar a voz da transformação social.
Reflete-se também na jornada tripla que exaure as educadoras, transformando o tempo de descanso em trabalho invisível para cumprir exigências burocráticas, além da defasagem salarial que atinge a independência financeira, pilar histórico da emancipação feminina.
Recorte racial
A perda de direitos não atinge a todas da mesma forma. No ambiente escolar, o peso do machismo soma-se ao racismo estrutural para alcançar as educadoras negras que, na maioria das vezes, ocupam cargos na limpeza e na cozinha.
“Assim como na ficção as mulheres são divididas por castas e submetidas a diferentes níveis de violência, na realidade são as trabalhadoras negras que enfrentam com mais frequência a violência institucional e a precarização. Falar de igualdade sem encarar de frente o antirracismo é ilusão: a nossa luta só é verdadeiramente coletiva quando não deixa nenhuma companheira para trás”, enfatiza Tatiana.
Resistir para não permitir Gilead
Na distopia de Atwood, Gilead se consolidou porque a sociedade aceitou a retirada gradual da liberdade. “A escola pública é, por excelência, o maior antídoto contra qualquer projeto de sociedade autoritária, patriarcal e racista. É nas salas de aula que meninas aprendem que têm direito ao futuro, à voz e ao próprio destino, mas, para formar gerações livres, quem ensina precisa ter dignidade para lutar”, pontua Tatiana.
A pauta da APP-Sindicato para este 26 de agosto é um manifesto de combate pela garantia das sete horas-atividade para a jornada de 20 horas e pela preservação da saúde mental; pelo enfrentamento implacável ao assédio moral, ao machismo e ao racismo; pela valorização salarial, descongelamento de direitos e realização de novos concursos públicos; e pela defesa irrestrita da autonomia docente com gestão democrática e pelo não fechamento de turmas e escolas, assegurando que a rede pública siga forte, inclusiva e plural.
“A ficção nos alerta sobre até onde o silêncio pode nos levar. A organização sindical mostra até onde a nossa força coletiva pode chegar na luta por igualdade e contra a retirada de direitos”, conclui a secretária.
Ameaças X conquistas: o paralelo com Gilead
Na obra de Atwood, a perda de direitos femininos não exigiu a criação de novos castigos, mas a revogação de leis históricas. A história brasileira demonstra que cada avanço rumo à igualdade dependeu da resistência. O desmonte de políticas públicas e da autonomia profissional sinalizam os primeiros passos para o retrocesso social. Preservar as conquistas do passado é o que impede a ficção de virar realidade.
1879 – Acesso ao ensino superior
Garantia do direito ao ingresso das mulheres nas faculdades brasileiras. Em Gilead, o acesso ao conhecimento e à leitura é banido para as mulheres.
1932 – Conquista do direito ao voto
A inclusão no Código Eleitoral assegura a voz política. Na ficção, a tomada do poder anula a cidadania e a representação feminina.
1962 – Estatuto da Mulher Casada
Fim do controle marital sobre o trabalho e a gestão financeira das mulheres. Em Gilead, as contas bancárias femininas são bloqueadas e transferidas aos homens.
1977 – Aprovação da Lei do Divórcio
Conquista da autonomia civil para dissolver matrimônios e decidir o próprio destino sem tutela do Estado ou do marido — em contraste direto com a servidão conjugal compulsória de Gilead, onde a mulher é propriedade do lar e privada de qualquer direito de escolha.
1988 – Igualdade na Constituição Cidadã
Consagração da igualdade formal de direitos perante a lei, barreira jurídica contra governos autoritários, o exato oposto da estrutura teocrática do livro, que revoga a cidadania feminina, elimina o devido processo legal hierarquizado por gênero e classe.
2006 – Lei Maria da Penha
Criação de mecanismos de proteção contra a violência doméstica, combatendo o machismo institucionalizado. No regime de Gilead, o Estado não apenas ignora a violência contra a mulher, mas a institucionaliza sob a forma de violências e punições.
2015 – Lei do Feminicídio
Tipificação do assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo, que reconhece a gravidade da violência patriarcal em oposição à banalização da vida feminina na obra, em que corpos de mulheres são descartáveis.
2023 – Lei da Igualdade Salarial
Exigência legal de remuneração equivalente para garantir a independência financeira feminina, opondo-se radicalmente ao primeiro passo da ascensão de Gilead, que consistiu em congelar as contas bancárias das mulheres, com a proibição de trabalhar e possuir bens.
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