Desafios da defesa dos direitos da população LGBTQIA+ foram abordados durante um seminário estadual realizado pela Secretaria da Mulher Trabalhadora e Direitos LGBTI+ da APP-Sindicato, no último sábado (26), na sede da entidade, em Curitiba. Com democracia, envelhecimento e saúde mental como temas centrais, o evento reuniu lideranças, especialistas de várias áreas, professores(as) e funcionárias(os) de escolas, da ativa e aposentadas(os), de todas as regiões do Paraná, em um espaço de diálogo, troca de experiências e também de reflexão sobre a conjuntura política.
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“Realizar essa atividade foi muito importante porque, hoje em dia, a gente tem a preocupação de saber quem são os que vão nos governar, por conta das políticas que eles podem trazer, que podem ser positivas ou negativas. Temos preocupação sobre o envelhecimento, porque a gente precisa de políticas públicas para viver bem, e também é urgente falar de saúde mental, entender e combater o que faz o educador da população LGBT adoecer no local de trabalho”, explicou o secretário executivo da Mulher Trabalhadora e dos Direitos LGBTI+, Clodoaldo Antunes.

O seminário teve início na parte da manhã, com uma reunião para ouvir relatos das(os) trabalhadoras(es) em suas escolas e pautar a criação de coletivos regionais LGBTQIA+, onde ainda não estão organizados. “Sabemos que a LGBTfobia não acontece apenas na sala de aula, mas também na sala dos professores, por exemplo. Por isso, os coletivos são muito importantes para trazer as demandas dos educadores de cada região e organizar a categoria, fortalecer a atuação do sindicato e assegurar que o local de trabalho garanta condições dignas para todos”, afirmou Clodoaldo.
Envelhecimento e democracia
Secretário de Direitos Humanos da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) e presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ (CNLGBTQIA+), Zezinho do Prado resgatou o período do surgimento da HIV/Aids, do estigma atribuído à população homoafetiva e da baixa estimativa de vida desse grupo populacional naquela época. Apesar de apontar avanços em relação a esses pontos, ele pondera que ainda há outros desafios para a população LGBTQIA+ na terceira idade, como a tecnologia, a violência e a solidão.
“Os desafios principais que eu vejo e percebo a serem enfrentados pelas pessoas LGBTQIA+ começam dentro da própria família. Às vezes a própria família não aceita e a pessoa precisa sair cedo de casa. Então, já começa a sofrer LGBTfobia na família e depois na sociedade. Isso faz com que a gente tenha desafios, por exemplo, de viver essa fase totalmente sozinhos, ou seja, sem ninguém, sem um grupo de apoio, sem parentes, sem família. A gente sabe que, conforme o tempo vai passando, vai envelhecendo e as nossas possibilidades de fazer as coisas continuam. A gente consegue fazer, mas com muito mais lentidão, com muito mais dificuldades”, disse.

Para Zezinho, esse contexto associado com um mundo cada vez mais digitalizado exige políticas públicas para garantir uma velhice digna. Ele cita como exemplo o caso de um amigo, trabalhador da educação, que morreu sem conseguir retirar um dinheiro que recebeu de ação judicial. Já idoso e adoecido, o educador não lembrava a senha da conta no banco e não conseguia ajuda para resolver a situação.
“Para mim, é um desafio muito grande a questão da tecnologia. Como é que vamos fazer para enfrentar a nossa velhice quando a gente não tem ninguém? Grande parte dessa população vive em um isolamento social, por não ter família. A questão da tecnologia, que não entende, e fica com medo de sair, de passear por conta da violência, de ser morto, de ser assaltado. Enfim, esses são desafios muito grandes para nós”, comentou.
Presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto destacou o fato de que conquistas recentes, como direito ao uso do nome social para pessoas trans e ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, não decorrem de leis aprovadas pelas(os) parlamentares eleitas(os), mas de decisões judiciais. Ela alerta sobre o risco de retrocessos com a possibilidade de alteração desses julgamentos, como já ocorreu em outros países após a eleição de candidatas(os) da extrema direita.

“Apenas 3% dos deputados e senadores que compõem o Congresso Nacional são pessoas LGBTQIA+. Esse é um número que precisa ser refletido por toda a sociedade, pois não podemos dizer que vivemos em uma democracia de fato enquanto a representação da população brasileira não estiver presente nos espaços de poder e decisão. Por isso, este é um momento importante para agir e mudar essa realidade, votando e elegendo quem defende as pautas da comunidade LGBTQIA+.”, afirma.
Questão de sobrevivência e de dignidade
A pós-doutora em Psicologia e pesquisadora Instituto Areja, Grazielle Tagliamento, abordou a saúde mental a partir da perspectiva do sofrimento ético, estético e político. Segundo a profissional, esse é um conceito que ajuda a entender que situações como depressão, ansiedade e pânico que atingem a população LGBTQIA+ não são doenças individuais, mas sim respostas legítimas de um contexto de opressão estrutural.
“Se a gente pegar, por exemplo, a pesquisa nacional sobre bullying no ambiente educacional, feita pela Aliança Nacional LGBTI, a gente vê que 94% dos estudantes LGBTIs relataram se sentir deprimidos no último mês, e 84% tiveram crise de ansiedade ou choro nesse mesmo período. Esses números não revelam uma geração frágil, mas sim uma escola que produz sofrimento”, disse.

Na avaliação da especialista, é urgente que o tema seja debatido com todas as trabalhadoras e trabalhadores da educação, porque a escola é o principal espaço de socialização de adolescentes e jovens. Ele apresenta dados da pesquisa, como que 34% dos agressores são docentes e 16% são da gestão, para sustentar que a escola é parte do problema.
“Isso não é um dado para a gente culpabilizar individualmente as profissionais e os profissionais, mas para mostrar que a LGBTfobia é estrutural e institucional, e que as educadoras e professores precisam de formação, protocolos e apoio para não reproduzi-la”, explicou.
Segundo Grazielle, o impacto dessa LGBTIfobia é devastador e imensurável. Ele cita estatísticas apontando que 94% das estudantes e dos estudantes LGBTQIA+ relataram depressão, 84% tiveram crise de ansiedade, 47% faltaram à escola e que 60% dos jovens e das jovens trans já pensaram em abandonar os estudos por motivos relacionados à LGBTIfobia. “Então, a escola que deveria proteger, se torna um campo minado”, afirmou.
Grazielle destaca ainda que a falta de cuidado adoece também as trabalhadoras e os trabalhadores da educação. “Professoras e professores LGBTs também sofrem LGBTfobia no ambiente de trabalho. E aí entra o papel, a importância do sindicato, que é um espaço fundamental de acolhimento e de resistência coletiva. Por isso, discutir saúde mental como política de cuidado é, portanto, discutir o direito à educação, a permanência na escola e a vida. Não é um tema a mais na pauta sindical, é uma questão de sobrevivência e de dignidade”, declarou.
“Escola segura é compromisso de todos”
Presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero OAB/Araucária, o advogado Jhordyman Andrade dos Santos explicou que os direitos fundamentais e a proteção contra discriminação são idênticos para os trabalhadoras(es), independente do vínculo. “Escola segura é compromisso de todos. QPM ou PSS, sua proteção contra discriminação e seus direitos fundamentais permanecem. Busque apoio jurídico e sindical. Você não está só”, declarou.

Em caso de violação de direitos, Jhordyman orientou que a(o) educador(a) pode procurar apoio na APP-Sindicato e utilizar canais como a Ouvidoria da Secretaria de Estado da Educação e a Controladoria Geral do Estado para formalizar a denúncia. Segundo o advogado, é importante produzir e preservar provas, organizando cronologia, datas, locais, mensagens completas, documentos, protocolos e testemunhas.
Participação
Entre os participantes do seminário, o professor de Sociologia, Rafael Vinícius da Silva, que é diretor de escola no município de São João do Caiuá, avaliou a atividade como muito positiva. Para ele, os debates oferecem um caminho para unir forças e ampliar a discussão sobre com outros setores da sociedade em busca de soluções para os problemas levantados.

“O seminário traz pra nós um sentimento de coletividade, de que nós estamos sozinhos. Às vezes no dia a dia, na correria da vida, nós nos sentimos isolados e parece que o mundo cai só na nossa cabeça, da população LGBT. Mas quando nós vemos que estamos juntos,a gente percebe que isso é uma dor coletiva, um problema estrutural. Então, o fato de questionar, de conversar, de dialogar, coloca para nós a possibilidade de buscar alternativas”, comentou.
Já o professor de Língua Portuguesa, Jonathan Chasko da Silva, de Cascavel, destacou que os eventos promovidos pela APP-Sindicato são espaços formativos e qualificados pelos conteúdos ministrados por lideranças e especialistas. Disse também que as atividades permitem a reflexão sobre questões que, em função das cobranças e sobrecarga de trabalho no cotidiano da escola, as(os) educadoras(es) não conseguem fazer.

“Eu sou professor temporário, então eu não tenho um auxílio de saúde do governo, nem sei se eu vou me aposentar. Pensar no envelhecimento e pensar nas questões legais, pensar não só na minha atuação enquanto professor LGBT, mas na minha saúde mental enquanto professor LGBT, que é uma coisa que já me passou pela cabeça, mas eu não dei muita importância, mas nesse momento eu começo a pensar. Então, este seminário é de grande valia, de enriquecimento, no sentido de propor que a gente reflita antes da água bater na bunda”, comentou.
Na mesma linha, a professora do Ensino Fundamental I da rede municipal de Arapoti, Jéssica Cristina Pinheiro, também destacou as contribuições das(os) palestrantes convidadas(os) e que o encontro possibilita aos educadoras(es) identificar objetivos comuns, falhas e construir, coletivamente, as melhorias.

“A sociedade precisa entender que nós existimos. Precisamos ter o nosso espaço. Nós precisamos nos apoiar, saber quem somos. Estamos aqui, temos uma função e nós temos que lutar e resistir. Nós votamos, nós contribuímos, nós temos direitos. Nós temos que lutar, porque não existe direito sem luta. E a nossa luta é diária. Ser uma pessoa da comunidade LGBT é resistência”, afirmou.
Também acompanharam as discussões as(os) dirigentes estaduais das secretarias de Comunicação, Daniel PopilnickI, de Administração e Patrimônio, Margleyse dos Santos, de Organização, Sidineiva de Lima, de Aposentados(as), Elisa Muller, e da Mulher Trabalhadora e Direitos LGBTI+, Tatiana Nanci da Maia.
A programação do seminário continuou no domingo (27), com participação na 25ª edição da Parada da Diversidade LGBTI+ de Curitiba. Com o tema “Das Ruas às Urnas: LGBTQIAPN+ pela Democracia”, o evento ocorreu na Praça Santos Andrade, no centro da capital.
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